Ecofeminismo em prática

No dia 23 de setembro, a juventude ambientalista voltou a se mobilizar. Terminando um verão marcado por ondas de calor e incêndios em que as consequências da emergência climática são cada vez mais visíveis e num momento de instabilidade política e social marcado por uma forte crise energética, apelamos à mobilização cidadã para um pedido de democratização do nosso sistema energético. A energia é um bem necessário que não deve depender do benefício econômico que traz. Como qualquer crise, a crise energética não afeta todas as pessoas igualmente. É por isso que temos de prestar especial atenção aos grupos mais vulneráveis ​​da população, à margem do sistema, que carregam nos ombros toda a pressão de um sistema energético que, há já algum tempo, é o exemplo mais claro da insustentabilidade do capitalismo. Estamos falando de vulnerabilidade e de não deixar ninguém para trás na transição energética. Queremos uma energia para todas as pessoas, e para isso é preciso incorporar práticas e teorias ecofeministas.

Os ecofeminismos são teorias e práticas que sustentam a existência de vínculos profundos entre a subordinação das mulheres e a exploração destrutiva da natureza, com o objetivo de alcançar a justiça para as mulheres e transformar a relação humana com outros seres vivos e ecossistemas, como disse Alicia Puleo. Nós mesmas, ativistas do movimento Juventud por el Clima, definimos o ecofeminismo como “um conceito que expressa a confluência histórica, material e filosófica entre as dinâmicas de subordinação das mulheres e identidades marginais, e a dominação da natureza” (Amigos de la Tierra e Fridays For Future). Os ecofeminismos consistem na somatória dos movimentos ambientalistas, feministas e decoloniais, construindo-se sobre uma base interseccional e evidenciando as condições de vulnerabilidade, interdependência e ecodependência de nossos corpos. É uma proposta prática e teórica que busca romper com as lógicas binárias hegemônicas de dualismos opostos e excludentes – como cultura/natureza, homem/mulher, razão/emoção, público/privado, produção/reprodução, sujeito/objeto, urbano/rural… –, propondo assim uma mudança nas relações estabelecidas. Além disso, assume as críticas à invisibilidade e desvalorização dos trabalhos de reprodução social e de cuidados, que são aqueles que possibilitam a sustentabilidade da vida por meio da complexa rede de relações de interdependência, somos pessoas que precisam de outras pessoas para nossa sobrevivência) e de ecodependência (precisamos de recursos naturais ou elementos comuns, como o sol, a água, a terra ou o ar). Os ecofeminismos falam em termos de equidade, justiça, redistribuição, cooperação, valor de uso, resiliência, cuidados, soberania… E dizemos ecofeminismos no plural porque existem diferentes perspectivas: essencialistas, espiritualistas, construtivistas, animalistas, antiespecistas, queer, materialistas…

Os ecofeminismos nos oferecem um passo além da soma dos pensamentos críticos do ambientalismo e do feminismo, pois é uma redefinição de como nos relacionamos com as pessoas ao nosso redor e com o planeta que habitamos. Eles nos oferecem uma alternativa para a crise dos valores individualistas e consumistas, bem como uma ferramenta para enfrentar o machismo da sociedade patriarcal androcêntrica que continua pautada em um discurso de dominação da natureza, relacionado ao paradigma do conquistador, guerreiro e caçador. Em suma, trata-se de avançar para a igualdade de gênero tanto na participação na cultura quanto na natureza, sobretudo valorizando elementos desprezados e marginalizados como femininos. Estamos falando de laços emocionais, de compaixão ou da relação com a natureza. O feminismo não deve ficar fechado às novas sensibilidades e preocupações das mulheres e, sem dúvida, o ambientalismo é uma delas, principalmente das mais jovens. Os ecofeminismos têm muito a contribuir neste século XXI, quando a humanidade terá que enfrentar uma profunda transformação socioeconômica e cultural para alcançar a igualdade e a ecojustiça para simplesmente sobreviver.

Estamos em um contexto de emergência climática que nos faz entender a importância de preservar e cuidar da Terra, da qual dependemos assim como das pessoas que a habitam. Nos espaços de militância relativamente novos, como o Juventud por el Clima – Fridays For Future, observam-se novas fundações fortemente marcadas por uma cultura de igualdade e sustentabilidade ainda em construção nos espaços mais intergeracionais. O ecofeminismo consiste em uma ferramenta e uma conceituação: uma ferramenta para gerar espaços seguros de luta e reivindicação, em que cuidamos uns dos outros, bem como um conceito para teorizar e defender ao estabelecer metas. Como ativistas ambientais, para nós o ecofeminismo também é uma resposta à situação de emergência climática em que nos encontramos. As soluções de adaptação e mitigação que construímos devem basear-se na premissa da justiça social, pois, como qualquer crise, esta não atinge todas as pessoas igualmente.

Juventud por el Clima ou Fridays for Future Espanha é um movimento de jovens horizontal autogerido. Um movimento que se considera ecofeminista e que, portanto, busca acabar com as hierarquias de poder, deve ser necessariamente horizontal. Todos devemos ser capazes de fazer parte do processo de tomada de decisão e ter nossas vozes contadas. É o primeiro contato com a militância que muitos de nós tivemos, portanto tem sido uma experiência de construção de um espaço confortável e seguro. Queremos que essa horizontalidade se veja projetada em nossa imagem, por isso, ao escolhermos representantes para determinados eventos, garantimos que haja paridade e que a diversidade do grupo seja vista. Nosso movimento tem uma organização descentralizada em cada uma das províncias espanholas, coordenadas pelo Estado. Esse tipo de organização também busca colocar o cuidado e as vozes menos ouvidas no centro, e a coordenação no nível estadual permite que os maiores territórios deixem espaço para outros que têm menos visibilidade, garantindo que seus problemas também possam ser cobertos na escala estadual.

Entre todas nós e através de uma comissão de atendimento, reservamos um espaço para gerar uma área segura para todas as companheiras. Militar, lutar ou reivindicar dessa forma deve ser um direito, não um privilégio, e a segurança deve ser entendida além do material. O cuidado permeia toda nossa luta e nossos espaços. Vemos isso nas equipes presentes em nossas assembleias, nos facilitadores que cuidam para que não haja comportamentos machistas ou patriarcais e na atitude de todos os nossos colegas, constantemente atentos uns aos outros. Vemos isso em tempos de escuta, em fazer com que cada um sinta seu próprio espaço e a legitimidade para ocupá-lo. Ser ecofeminista é ter interiorizado que o movimento são pessoas, que compartilhar espaços é se conhecer e se ouvir. Isso é visível no acolhimento e apoio mútuo que oferecemos umas às outras, compartilhando nossas preocupações e coletivizando-as para enfrentá-las com mais força. Construir um grupo é construir em coletivo, gerando uma rede de apoio que motiva e anima a militância.

Por isso, colocar a vida no centro não deve permanecer como uma frase em nossas narrativas e manifestos, mas deve ser uma prática consciente no próprio movimento. Afinal, os cuidados somos todas nós. Assim como muitos outros grupos e organizações, reivindicamos uma forte transversalidade, bem como a necessidade de um espaço de sinergias e redes entre lutas. Em última análise, não podemos enfrentar a emergência climática sozinhas, mas com amigas podemos.

Artigo de Martina Di Paula López, Sofía Fernández Álvarez e o coletivo Juventud por el Clima publicado em Pikara online magazine em 5 de setembro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/09/ecofeminismo-en-practica/

Tradução: Luiz Morando.

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