Romper o silêncio e escutar a palavra

A imposição do silêncio é uma forma de controle que tem sido usada ao longo da história para manter o heteropatriarcado. Esse sistema de ordem social precisa manter os papéis de gênero para atribuir privilégios aos homens às custas da força produtiva e reprodutiva das mulheres, de seus corpos e de suas vidas.

Assim, a masculinidade tradicional, associada ao poder, ao controle, ao valor, ao domínio da razão, à posse de saberes e ao espaço público, tem se sustentado por meio do silenciamento das mulheres.

A frase “calada, você é mais bonita” soa familiar para todos nós como uma forma de deslegitimar as histórias das mulheres e manter a ordem social dos gêneros binários em que os homens têm legitimidade da palavra à custa da invisibilidade das mulheres para manter relações de poder. Os papéis de gênero predominantes associados à mulher constroem uma feminilidade associada ao papel de cuidadora, paciente, quieta, dócil e submissa.

Esse silenciamento das mulheres tem sido imposto por meio de diversas formas de violência. O silêncio é uma forma de controle e dominação do sistema patriarcal para que as mulheres não contem suas histórias ou gerem histórias públicas que justifiquem os abusos que sofrem para manter relações de poder. Se as mulheres se rebelam contra essa imposição, elas iniciam mecanismos de controle e punição para manter o sistema patriarcal. Como disse Adrienne Rich: “Em um mundo onde a linguagem e dar nomes às coisas são poder, o silêncio é opressão e violência.” E já sabemos que o que não tem nome não existe.

Algumas formas de controle da palavra são o castigo social, ou seja, sair do padrão e ser uma mulher que não atende às expectativas dos papéis tradicionais de gênero faz com que o meio social castigue essa mulher por meio de insultos (puta, má, doida), podendo gerar isolamento social e culpa. A psicopatologização: o sistema médico-psiquiátrico se construiu sob um olhar patriarcal que considera as mulheres que falam abertamente como doentes. Se você não cumpre os papéis de gênero, você é louca. A medicalização: o olhar patriarcal da ciência médica é a violência porque obriga as mulheres a se submeterem a diferentes tratamentos para silenciar suas vozes e manter o status quo. Agressões e violência: este sistema patriarcal pune as mulheres que se manifestam por meio de diferentes formas de violência verbal, física ou institucional. E invisibilidade: não serem ouvidas ou levadas em consideração pelo fato de serem mulheres.

Diante dessa situação em que muitas mulheres se revelaram, surge a necessidade de colocar em palavras suas próprias experiências, denunciar os processos de dominação e gritar que está tudo bem com tanta violência.

É assim que o movimento feminista surge como uma forma de reivindicar o direito das mulheres de contar sua história, levantar a voz, tomar a palavra, colocar em primeiro lugar a capacidade de falar, de dizer de forma autônoma e consciente. Porque, como disse Mar Gallego em seu livro Como vaya yo y lo encuentre: “Ser pessoa é, afinal, sentir que você tem o poder de construir uma história que lhe permite ser digna por meio dela. É entender o poder como consciência de que você pode. Que nossa verdade possa ser explicada e ouvida”. Torna-se uma ferramenta para a transformação social e a criação de mudanças políticas claras para os direitos de todas as mulheres.

Passado o Natal, não podemos esquecer o caso de Ana Orantes, que interveio para denunciar publicamente a violência sofrida pelo marido, que acabou por assassinar. Este caso nos lembra que eles nos controlam para permanecermos caladas, submissas e dóceis. No entanto, muitas mulheres gritaram “chega” bem alto, criando um debate em todo o estado espanhol sobre a violência sexista por homens heterossexuais.

Ela não foi a única, há muitos casos ao longo da história em que as mulheres quebraram o silêncio. Biznegra criou um afrozine onde são resgatadas histórias de feminilidades negras que tomaram a palavra para mudar o mundo. Uma delas é Ida Wells-Barnett, uma afro-americana que tomou a palavra para lutar contra o racismo que existia nos Estados Unidos. Outro exemplo é Soujourneth Truth, que perguntou “e não sou uma mulher?” para tornar visíveis as desigualdades de gênero e a falta de direitos das mulheres afrodescendentes. Essa alegação, considerada a pioneira do feminismo interseccional, nos coloca uma questão: todas as mulheres são ouvidas dentro do movimento feminista? Somos todas consideradas igualmente legítimas para falar? E isso nos leva a nos perguntar: o que acontece quando você fala e ninguém escuta?

Como disse Dolores Juliano, em entrevista à revista Pikara conduzida por June Fernández, “Vivemos em sociedades altamente hierarquizadas nas quais o acesso ao poder por alguns setores inclui determinar qual é o discurso legítimo e qual não é; quem tem o direito de exprimir o seu ponto de vista e quem tem de se calar”. Isso é precisamente aquilo de que muitas mulheres que foram silenciadas por outras mulheres dentro do feminismo se queixaram. Mulheres pobres, racializadas, migrantes e um grande número de dissidentes têm apontado a falta de escuta de certos setores do feminismo. Assim como disse Gabriela Wiener, existe um feminismo que só se interessa pelo poder, baseado no silenciamento, no apagamento e na invisibilidade do outro. Dos movimentos sociais não podemos cair nessas dinâmicas de dominação porque repetimos padrões discriminatórios que sustentam esse sistema heterossexista, patriarcal, de classe e racista. Por esse motivo, acreditamos que é importante criar locais de encontro para quebrar o silêncio recíproco. Não podemos usar essa ferramenta histórica que tem servido para docilizar o corpo das mulheres. Procuramos promover a escuta ativa em espaços fluidos e abertos onde as dinâmicas opressoras e discriminatórias que ocorrem até dentro do feminismo são rompidas. Reivindicamos o direito de ouvir todas as mulheres.

Artigo escrito pelo coletivo Derecho a la Escuta, publicado no site da Pikara online magazine em 29 de dezembro de 2021. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/12/romper-el-silencio-y-escuchar-la-palabra/

Tradução: Luiz Morando

“O silêncio é uma forma de controle e dominação do sistema patriarcal para que as mulheres não contem suas histórias nem possam produzir relatos públicos que justifiquem os abusos que sofrem para manter as relações de poder.”

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