“Jeitinho”

Tenho dificuldade em me conectar com as pessoas do bairro onde moro. Desde criança, fui apontado como a criança que tinha o jeitinho. Aquele que falava fino, andava rebolando, tinha um manejo diferente das mãos, que tinha uma fala nasal. “Por que você fala assim?”

Apontavam como jeitinho por talvez quererem amenizar e não dizerem: os seus trejeitos são diferentes daqueles esperados para um menino. Um dos problemas da ideia de masculino-feminino é este: ou você se comporta como menino ou como menina. O binarismo não deixa espaço para uma existência diversa, múltipla, mista. Ou é uma coisa ou é outra. E muitos de nós morremos por não nos encaixar num extremo ou no outro.

Quando dizem que um menino tem jeitinho, no fundo estão querendo dizer que seus trejeitos são feminilizados. Me oponho ferozmente a essa ideia: sabemos da complexidade da construção da identidade de gênero – será que há espaço para categorizar tão cedo características que são tão sutis e subjetivas?

Queria ter crescido tranquilo com meus jeitinhos. Mas o tempo todo me lembravam o quanto eles eram ruins. O quanto eu era um ser-humano pior por não me comportar puramente como um menino. O tempo todo falavam do jeitinho puxando uma fala debochada, um riso maldoso no canto do lábio, uma troca de olhares com outro algoz que fazia com que eu me sentisse ridículo. Como o menino com jeitinhos do bairro pequeno, não houve muito espaço para resistência.

Me mataram tantas vezes eles quiseram.

Me mataram quando não deixavam seus filhos serem meus amigos. Depois me mataram quando eu estava chamando os cachorros na rua e disseram para o meu pai que eu chamava meus cachorros como uma menina. Me mataram ainda quando meu tio deu uma surra no meu primo para ele “virar homem”. Me mataram quando cuspiam em mim pela janela do ônibus que passava ao meu lado quando eu voltava para casa depois da escola.

E com isso, as mortes foram se somando.

Do lado da família estendida, a cada ano aumentava a cobrança por uma namorada. Até que eu arrumei uma. E me machuquei e a machuquei também. Depois de um tempo, quis parar de ouvir aquelas perguntas. Em algum lugar, admiti para mim que eu nunca teria uma namorada. E parei de ir ver meus parentes.

Quando eu comecei a admitir que gostava de garotos, muitos me disseram que já sabia. Não tinha jeito – o jugo do jeitinho sempre estaria por perto. Será que para sempre eu continuaria sendo lido?

Houve momentos em que pude ouvir outros meninos gays discorrerem sobre a relação do mundo com o jeitinho deles. Teve um a quem a mãe sempre disse para não correr com as mãos para cima e que apanhou do pai por querer dormir com um amiguinho quando criança. Tem aquele a quem a mãe sempre disse para evitar gritinhos em espaços públicos. E muitos de nós, hoje adultos de barba na cara e tudo, tentamos diariamente ressignificar nossas memórias e encontrar novos espaços e possibilidades de vivências.

Mas ainda é difícil, porque o mundo no qual você se formou foi o que tentou te ensinar que há algo de errado com você. E entre calar a si mesmo ou aos outros, você aperta o botão do mudo e espera o silêncio do mundo.

Mas daí você sai de casa num dia e vê as mesmas pessoas que te apontavam a vida inteira na porta de um bar rindo. Será que quando eu passar, elas vão rir de mim? E quando um ônibus escolar passa do seu lado, você ainda fecha os olhos 15 anos depois: a cuspida virá, a cuspida virá, a cuspida virá.

De modo geral, você descobre uma forma de existência no mundo e aprende o quanto o seu jeitinho é parte de si mesmo. E encontrará pessoas que estarão dispostas a falar das suas lembranças difíceis e acolher as suas memórias. E as coisas vão ficar bem, um pouquinho mais a cada dia.

É só seu o seu jeitinho e ele é bonito.

Acredite.

O autor do texto pediu para se manter anônimo.

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