Privilégios e estruturas

Nos últimos anos, tem-se falado com mais frequência de “privilégios” para apontar os efeitos do racismo. São oferecidas capacitações, publicados textos e financiados projetos destinados a revisar os “privilégios brancos” como forma de trabalhar as injustiças geradas pelo racismo. É cada vez mais frequente ouvir pessoas (brancas, heterossexuais, cis, funcionais, profissionais) afirmarem seus privilégios para indicar que estão cientes das desigualdades e dos benefícios que o sistema gera.

Perante essa atitude “consciente” face aos privilégios, coloca-se a questão se o seu reconhecimento é um primeiro passo para gerar mudanças estruturais mais profundas ou se, pelo contrário, refletem uma concepção do racismo como questão individual e ideológica que se supera com a mudança de atitudes e comportamentos individuais. Uma abordagem moral em que o ato de reconhecê-los constitui em si um gesto suficiente e “redimidor”.

Há alguns anos, com Lucía Egaña, problematizávamos narrativas semelhantes que são reproduzidas a partir de espaços feministas face a denúncias de racismo. Nesse sentido, é importante lembrar que o interesse das feministas antirracistas em questionar as relações desiguais de poder nos espaços feministas e em falar sobre os privilégios que a branquitude concede está vinculado ao propósito de denunciar as estruturas mais amplas que geram desigualdades. Não se trata apenas de apontar questões individuais, mas de conectá-las com seu caráter sistêmico e vinculá-las à continuidade das estruturas de opressão.

Nesse sentido, Arun Kundnani, em seu livro Capitalismo racial, aponta que as ações realizadas nos Estados Unidos e no Reino Unido para conscientizar sobre o racismo foram uma ferramenta para despolitizar as reivindicações dos movimentos antirracistas. Eles se limitaram a administrar relacionamentos e atitudes individuais, mas deixaram questões mais amplas, como o racismo estrutural e o imperialismo, incontestadas.

Kundnani diz que as estruturas não se importam com nossas atitudes porque elas são (re)produzidas de qualquer maneira. É inútil para ele que “os brancos busquem narcisicamente as origens do privilégio branco em suas próprias almas brancas”, uma vez que nos purificar do preconceito por meio de um confronto ousado com o privilégio é mais provável que produza vaidade do que igualdade. Além disso, ele adverte que, em uma economia neoliberal, saber “falar sobre raça” torna-se um conjunto de habilidades que agrega valor ao capital humano e que faz parte do imperativo geral trabalhar em si mesmo para se transformar e se tornar mais eficiente para o sistema.

Da mesma forma, bell hooks destacou a importância de grupos de conscientização em espaços feministas para entender o funcionamento do patriarcado e identificar o sexismo internalizado das participantes. No entanto, ela alertou que a fundação do trabalho feminista iniciou de maneira importante quando as mulheres começaram a criar estratégias para transformar o sexismo por meio do pensamento feminista e do engajamento na política feminista, para a qual a organização era fundamental. Embora esses espaços tenham sido importantes para a transformação das participantes, a construção de um amplo movimento feminista exigiu a organização e o desenvolvimento de estratégias de transformação social.

Em nosso contexto, olhar para as estruturas permite verificar como a lei e o Judiciário são um importante mecanismo de reprodução do racismo. O arquivo da investigação sobre o massacre em Melilla, a criminalização e expulsão de Mohamed Said Badaoui e Amarouch Azbi de suas comunidades, a perseguição de jovens migrantes, a remoção da custódia de mães migrantes e pobres, a exclusão das necessidades de pessoas trans migrantes na lei pela igualdade efetiva das pessoas trans são alguns dos exemplos mais recentes.

Diante da boa saúde do modelo de civilização racista, capitalista e patriarcal em que vivemos, devemos lembrar que o que muda as estruturas é a organização e a ação coletiva. É importante ter em conta o lugar que cada um ocupa, abandonar as falsas ideias de igualdade e atender às diferenças que existem entre nós. No entanto, devemos fugir de abordagens que colocam o racismo como uma questão moral e individual para olhar para as estruturas que o reproduzem e geram desigualdade.

Artigo de Florencia Brizuela Gonzalez publicado em Pikara online magazine em 9 de janeiro de 2023. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2023/01/privilegios-y-estructuras/

Tradução: Luiz Morando.

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