Adivinha quem vem para a consulta

Ontem à tarde, tomávamos umas cervejas animadamente no terraço de uma amiga. Montse, que conheço há décadas, gosta de reunir pessoas queridas díspares de seu mundo, pessoas que não se conhecem, para compartilhar suas maravilhosas experiências de vida e basicamente gostar um do outro. Ela quase sempre consegue isso com uma naturalidade deliciosa, como boa facilitadora que é, como um bom ser de luz.

Pois bem, ontem ela fez isso de novo. Organizou um encontro com cervejas e uma tortilha para quatro ou cinco e, após uma breve apresentação, começou a conversar sobre nossas coisas. Estou perfeitamente ciente de que antes de chegar a qualquer reunião, todas as pessoas presentes já sabem que sou uma pessoa trans: porque, basicamente, é um fato muito saboroso para deixar passar; porque as pessoas que me conhecem há anos podem ter escorregado com os pronomes; ou para proteger-me de erros hipotéticos. Bem, vou com frequência ao terraço multicultural de minha amiga Montse e é raro que uma das minhas anedotas “trans” não monopolize a conversa. É verdade que costumo ficar bastante teatral para contar minhas histórias, e ontem não ia ser diferente. Provavelmente, o momento mais hilário da tarde (eles literalmente rolaram de rir) foi quando comecei a narrar em detalhes minha última e penúltima visita ao ginecologista.

Costumo dizer que levo tudo como brincadeira, que ir a essa especialista não me causa estresse e que não estou disposta a ter medo ou vergonha de fazer meu check-up anual. Mas a verdade é que tudo, absolutamente tudo, nessa situação é um gerador constante de tensão.

Na minha última visita, os centros de saúde ainda estavam tomando precauções quanto à capacidade e mobilidade dos pacientes, devido às precauções com a covid. Uma enfermeira me parou na porta da clínica para me perguntar: “Você! Aonde vai?”. Eu respondo: “Ginecologia”. E ela me diz: “É para você?”. “Sim”, respondo.

E ela pergunta novamente: “Para você?”. E eu: “Sim…”

E ela volta a me perguntar pela TERCEIRA VEZ, e eu respondo novamente com um breve “sim”, porque naquele dia eu não estava com vontade de dar explicações. Com cara de cachorro bravo, ele me mandou para a sala 106 do primeiro andar, pensando que outra enfermeira me esclareceria do MEU ERRO.

A sala de espera me proporcionou a situação tensa número dois. São quatro mulheres, três delas visivelmente grávidas. Nem mesmo as máscaras conseguem esconder suas expressões de espanto. Elas pararam de conversar e se perguntaram com os olhos o que eu fazia ali. Felizmente, fui chamado primeiro. Chamaram meu nome aos quatro ventos, e eu deslizei silenciosamente como um ninja para a consulta.

Parece que a ginecologista septuagenária que me atendeu nos exames anteriores finalmente se aposentara. E finalmente digo com alívio, por ela e por mim, depois de anos de rostos reprovadores, perguntas impertinentes e desnecessárias e um total desconhecimento da corporalidade de seu paciente, neste caso eu. Ano após ano tive que aguentar sua irritação quando lhe dizia, a cada vez, que não tinha a menor intenção de remover meu útero ou óvulos e, longe disso, pensava em fazer uma faloplastia. Em uma ocasião ela me disse: “É o que você pensa agora, mas você vai mudar de idéia.” Essa intrusão me incomodou enormemente, mas decidi virar a página enquanto passava pela porta ao sair. Senhoras que projetam sua ideia de trans em você.

Nessa ocasião, fui atendido por duas moças, duas profissionais, de fato, mais novas que eu. Suspirei de alívio quando percebi que havia passado da etapa daquela velha impertinente, e que elas, por outro lado, tinham feito o dever de casa. Elas estavam interessadas ​​na minha mastectomia e em um mioma que estava dançando ao redor do meu útero anos antes. E acima de tudo, fui tratado com EXTREMO cuidado. Certamente, elas não conseguiam esconder certa risadinha nervosa toda vez que me diziam o próximo passo que era apropriado em minha exploração. Elas falaram comigo com o carinho e a doçura com que um bebê é tratado, embora dessem muitas coisas como garantidas, devido à miscelânea de informações sobre masculinidades trans que abundam na televisão e na internet.

Primeira coisa: elas deram como certo que eu sou um homem trans. Vejamos, se não sou mulher… o que vou ser? Eu também não queria gastar muito tempo lá fazendo afirmações não-binárias, porque a preguiça e a covardia muitas vezes levam a melhor sobre mim. Então, vamos à outra coisa.

A segunda: elas tinham como certo que minha orientação de desejo era para as mulheres e que eu não estava acostumado a me envolver em atividades sexuais que incluíssem penetração. Percebi a tensão delas quando colocaram “o espéculo” em mim (sim, eles falaram comigo em letras minúsculas na maioria das vezes, para minimizar eu-não-sei-muito-bem-o-quê) e me disseram para não me preocupar com isso pois iriam fazer com muito cuidado a introdução do bastão com câmera, devidamente lubrificado, com a qual se fazem hoje os ultrassons. Fiz uma piada, e disse para não se preocuparem, que havia espaço para dois elefantes em posição fetal, e elas caíram na gargalhada, quebrando grande parte da tensão do momento.

A terceira “certeza” delas é que hoje os homens trans podem gestar e dar à luz seus próprios bebês. Não sei muito bem se descobriram no mundo acadêmico ou nos tabloides, quando o caso midiático do meu amigo Rubén Castro, pai trans que deu à luz na primavera de 2021, circulou pelo país. Como já vínhamos do ponto anterior fazendo algumas brincadeiras para quebrar o gelo, em plena exploração com a câmera no meu ovário direito, com as pernas abertas e com as mãos entrelaçadas apoiadas no peito, a médica me “parabeniza” e diz que eu tenho um folículo enorme e muito saudável para fazer TRH [terapia de reposição hormonal], e se eu decidisse desistir da medicação por um tempo eu poderia ter um BEBÊ MUITO LINDO ali. Lindíssimo. O único superlativo da comunicação. Deve-se notar que tenho 45 anos e não tenho a menor intenção de ter um bebê muito bonito. Mas obrigado por perguntar.

Ontem, esses amigos escolhidos por acaso e pela mão sábia de minha amiga Montse caíram na gargalhada quando lhes contei sobre as hesitações libertadoras que trouxe com os médicos. Percebi imediatamente que aquelas gargalhadas consistiam em liberar sua própria tensão, simpatizando comigo em uma situação supostamente tão delicada. Felizmente, a cada dia há mais profissionais de ginecologia e obstetrícia que voltaram sua atenção para identidades trans que precisarão de sua proteção e de sua profissão. Mas, quando não é assim, às vezes visitar esses profissionais pode ser uma provação e um preconceito atrás do outro. Há muitas pessoas trans que temem ou rejeitam ir a uma consulta de ginecologia. Recomendo minhas companheiras trans buscar recomendações de profissionais que as tratem com carinho, empatia e que tornem a experiência o mais suportável possível. Que não haja desculpas para conhecer nossos corpos, por dentro e por fora.

Depoimento de Víctor Gil Viruta à Pikara online magazine publicado em 23 de março de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/03/adivina-quien-viene-a-consulta/

Tradução: Luiz Morando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s