“Há uma infantilização constante das mães”

Nós, mães, estamos cansadas, mas acima de tudo estamos cansadas de estar cansadas. Diana Oliver (Madri, 1981) acrescenta que “não é a maternidade em si que esgota, mas as condições que lhe são impostas”. Maternidades precárias (Arpa, 2022) é um ensaio que denuncia e reflete sobre as condições em que somos mães e quais os efeitos disso na saúde física e mental. Oliver é jornalista especializada em infância, maternidade e saúde. Ela colabora regularmente com o El País e acaba de ingressar no Instituto Europeu de Saúde Mental Perinatal. Em suas palavras: “Enquanto o direito de cuidar e de ser cuidado não for reconhecido, e os mecanismos legais que protegem esse direito forem estabelecidos, continuaremos nos fazendo as mesmas perguntas: se se cuida quem quer cuidar ou quem pode cuidar. Se podemos escolher livremente cuidar. E como cuidamos quando fazemos isso.”

Adrienne Rich escreveu em Nacemos de mujer que a maternidade e a sexualidade foram usadas “para servir aos interesses masculinos”. Uma ferramenta para controlar as mulheres e, também, para garantir a sobrevivência do patriarcado. Depois de ter uma menina e um menino, em quais atos, simbologias e silêncios específicos você se reconhece no que Rich aponta?

Quando você tem filhos, uma forma óbvia de controle é por meio de sua criação: que horários e quais formas de cuidados são permitidas. Prevalece um sistema baseado no que é produtivo, no poder, nas relações de dominação contra outro que está longe de tudo isso e que está relacionado à colaboração, à interdependência e ao ritmo lento. Também está no controle de nossos corpos a partir dos processos reprodutivos. Parece que somos livres para decidir quando, como e com quem ter filhos, mas na realidade não somos livres se não podemos concordar em ter filhos por motivos econômicos, de trabalho e, muitas vezes, pessoais. Aqui já existe um controle claro da gravidez. Rich disse que sentia que deveria ser “como as outras mulheres”, ou seja: com filhos. Agora parece que o que prevalece é justamente o contrário: o trabalho acima de tudo e depois, se tanto, os filhos. Mas é curioso porque, ao mesmo tempo, socialmente as pessoas continuam a esperar que quando chegar a uma idade já os tenha tido e insistem no quanto precisamos que a taxa de natalidade aumente. O mesmo sistema que te impele torna tudo muito fácil para que você não os tenha.

A gestão de nossas maternidades é acompanhada de perto pelo entorno?

Acho que sim, é assim que continuamos. E como Carolina León disse no prólogo do livro de Rich, quanto mais pobres, mais vigiadas. Eu acrescentaria que quanto mais você sai da norma e quanto mais crítica você é com o sistema, mais controle e julgamento você encontra. Há uma constante infantilização em relação às mães a partir do momento em que se pensa em engravidar. Parece que nunca sabemos como fazer, nunca sabemos o que é melhor, nunca temos clareza sobre nada. Somos marcadas como histéricas, superprotetoras, esquerdistas, irresponsáveis. Tudo parece ter que passar por filtros sociais, familiares e do trabalho.

Como essa vigilância se casa com o fato de sermos mais individualistas do que nunca?

Acho que no papel de regular porque ao mesmo tempo que somos “controladas” agora também ficamos mais sozinhas do que nunca. Estamos tão desconectadas das outras pessoas que nem sabemos como podemos ajudar as outras, muito menos pedir ajuda. Na maternidade muitas vezes nem sabemos como é um bebê ou uma criança. Pode ser que, até ser mãe, você não tenha tido contato próximo com uma criança. Que você não sabe nada sobre paternidade, amamentação, ritmos, fases de desenvolvimento, cuidados bem básicos.

Você afirma que existe uma “lacuna monstruosa” entre o relógio biológico e o relógio social: “Por isso somos um alvo fácil para a mercantilização de nossos corpos”. Onde estão os principais negócios da “lacuna monstruosa”?

É claro que a indústria da reprodução assistida tirou grande proveito disso: “Você quer ter filhos? Não se preocupe, aproveite, você vai ser mãe mais tarde”. O problema é que nem sempre estamos na hora e quando isso acontece o investimento financeiro e emocional é enorme. E depois há também o negócio da chamada “barriga de aluguel” que nada mais é do que a compra e venda de seres humanos e a exploração do corpo das mulheres. Há um lobby muito forte nos fazendo acreditar que se trata de altruísmo e que a paternidade e a maternidade são direitos.

“Sempre digo que o corpo da mulher é a última fronteira do capitalismo. Eles querem conquistar o corpo da mulher porque o capitalismo depende disso”, disse Silvia Federici. Ao fim e ao cabo, damos à luz a força de trabalho. Que leitura você faz dessa frase?

O capitalismo precisa que continuemos tendo filhos para que a roda continue girando, mas não pode desperdiçar a força de trabalho que somos. Todas essas mensagens de “querer tudo”, “não desistir”, “equilíbrio entre vida profissional e familiar” vêm a calhar. Nos fazem acreditar que temos carreiras profissionais incríveis ou que podemos aspirar a isso, que somos super “independentes” porque temos um emprego e que, além disso, podemos ter filhos e estar presentes. E então a realidade é que a maioria de nós tem empregos de merda, enormes problemas de saúde física e mental derivados do sistema e somos forçadas a fazer tudo. Para terminar, nos sentimos culpadas porque ainda não temos nem forças para estar com nossos filhos.

“Tenho dois filhos. Uma casa minúscula. ‘Meu’ trabalho. Muitas vezes me pergunto se estávamos errados em ter filhos. Não por eles, por nós. Pelo que podemos lhes oferecer. Pelo que queremos dar a eles, mas não podemos. Por estar sempre correndo e com raiva por não chegar a lugar nenhum.” Para imaginar, como você acha que seria cuidar, criar e conviver com as condições materiais resolvidas?

Isso ajudaria bastante. Tenho certeza de que quando você tem uma casa decente e não tem problemas para pagá-la no final do mês, ou não precisa pagá-la, isso já tira uma laje muito grande de seus ombros. E não acho que seja só isso. Isso tornaria as coisas muito mais fáceis para as cidades mudarem, para serem lugares mais amigáveis. Que deixemos para trás as formas atuais de trabalho: esses horários impossíveis em certos setores, as oito horas, que são mais mil, o presencial em tantos empregos. E depois há a precariedade dos salários. Que repensemos como estamos nos relacionando com o vizinho ao lado, com o padeiro, com o motorista do ônibus, com a nossa família.

Você fala muito da precariedade das mães agora, e eu diria: agora e sempre na classe trabalhadora. Pelo menos, as jornadas duplas ou triplas de miséria foram feitas antes mesmo de nossas avós. Mas será que um emprego bem remunerado e estável se correlaciona com crianças livres e felizes?

Acredito que um trabalho, por mais bem-remunerado e estável que seja, sempre será incompatível com a criação dos filhos se tivermos que fazê-lo sozinhas, em famílias nucleares isoladas. Por mais que haja um casal, e eles sejam corresponsáveis ​​pelos cuidados, é difícil cobrir tantas necessidades no dia a dia. As crianças adoecem, as crianças têm necessidades enormes nos primeiros anos, as crianças precisam de outros ritmos muito diferentes dos adultos… Como pode estar em dois lugares ao mesmo tempo? Falam em “conciliar”, mas ninguém sabe o que é isso.

Nós mulheres trabalhamos fora de casa há anos, mas a jornada de trabalho continua inflexível e as condições de trabalho para trabalhar e criar ao mesmo tempo são insuportáveis. Nós temos nos manifestado pouco?

Pouco nos manifestamos pelo que estamos vivendo. Quando naquele 8 de Março saímos várias para as ruas e fizemos aquela greve gigantesca do cuidado, pensei que começava aí uma grande mudança nesse sentido. Esse cuidado finalmente tomaria o lugar que merece. Depois veio a pandemia e parece-me que, apesar de tudo, apesar da evidência da nossa interdependência e fragilidade, o assunto se esvaziou um pouco.

Você diz que a conciliação não existe porque é um termo vago e impreciso, como “uma miscelânea de dilemas feitos a partir do viscoso conglomerado de expectativas, redes, circunstâncias pessoais e condições materiais e econômicas”. Quais medidas reais e viáveis ​​a Administração Pública poderia realizar para que a conciliação fosse concreta e possível?

É que devemos começar por nos perguntar o que é a conciliação. Como compatibilizar ter um trabalho fora de casa e outro dentro de casa? Mesmo que sejam a quatro mãos… Você sempre terá que parar uma das duas ou terá uma vida ruim para chegar até a metade de uma e da outra. Talvez devamos começar a dar visibilidade a isso, ao que não pode ser feito, e exigir ajuda universal ou salários para os cuidados.

“Uma em cada cinco mulheres no mundo sofre de um distúrbio de saúde mental durante a gravidez e no primeiro ano.” Quem cuida de quem cuidamos? Do que você sente falta na saúde pública em relação às mães?

Ninguém cuida das mães. Nosso sofrimento é desvalorizado porque “é o que toca”. Temos assumido muito que a maternidade é “assim”. Quando seu bebê nasce, de repente ele ocupa todo o espaço ao seu redor, ninguém vê além dele. Pelo menos no início, logo eles são esquecidos. Na saúde pública há um acompanhamento da gravidez e do parto, também depois do bebê, mas para você há muito pouco cuidado além de um check-up físico básico. Não há acompanhamento emocional, há poucos grupos de pós-parto e parentalidade, não é possível a criação desses espaços de encontro com outras mães que são tão necessárias e que literalmente te salvam.

Entrevista com Diana Oliver a Rocío Niebla publicada em Pikara online magazine em 2 de novembro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/11/hay-una-infantilizacion-constante-de-las-madres/

Tradução: Luiz Morando.

A jornalista Diana Oliver escreve sobre maternidade precária, isolada e frustrante resultado de um sistema desigual quanto à classe e ao gênero.
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