Relações afetivo-sexuais, um termo da polícia franquista

No Estado espanhol herdamos muitas coisas da ditadura franquista e do pensamento reacionário dos últimos duzentos anos, infelizmente. Há muitas dessas heranças que são mais óbvias, mas há outras que têm permanecido em nosso meio e as vemos como parte natural do nosso cotidiano sem saber sua origem. Acostumamo-nos a ver as placas dos edifícios oficialmente protegidos com símbolos milicianos, a ouvir um hino que é cantarolado mas que na verdade tem letra encomendada em 1928 durante a ditadura de Primo de Rivera (que, embora não seja a letra “oficial”, sim é muito real na cabeça de muitas pessoas conservadoras). Ou a chamar “divórcio expresso” ao que nada mais é do que um divórcio por mútuo acordo. Esse tipo de divórcio foi batizado pela Conferência Episcopal Espanhola, que conseguiu adiá-lo até 2005, apesar dos danos causados ​​pelos divórcios até então, como reconhece a exposição de motivos da mesma lei: “Sivam apenas como exemplo os casos de processos de separação ou divórcio que, ao invés de resolver a situação de crise conjugal, acabaram por agravá-la ou cuja duração se tornou maior que a da própria vida conjugal.”

Outra dessas heranças a que nos acostumamos é uma expressão cada dia mais comum, sobretudo em nosso país: afetivo-sexual. Esperamos que explicar sua origem e os problemas que pode causar ajude a substituí-la por outros termos que não sejam problemáticos quando se acredita que serve para evitar confusões.

A origem

No livro Sexualidad, Psiquiatría y Cultura, coordenado por Ángel Luis Montejo, todos os episódios que provocaram o nascimento do termo afetivo-sexual no final da ditadura franquista são reunidos com grande minúcia. Eu tinha ouvido a história pela primeira vez durante o Mestrado em Sexologia na Universidade de Alcalá de Henares (INCISEX). Então, sempre que posso, lembro como esse termo é problemático.

Para contar o episódio no Instagram, me documentei lendo o artigo que Ana Fernández havia escrito em 2020 no site da Asociación Estatal de Profesionales de Sexología (AEPS). Assim, pude averiguar que o episódio aparecia em uma publicação de Efigenio Amezua, um dos sexólogos mais importantes do Estado espanhol, e que também havia sido contado pelo médico Enrique Arango, que havia participado das jornadas de educação sexual que deram origem a todo o problema. Indo à fonte original, pude garantir que contei corretamente o nascimento do conceito “afetivo-sexual”.

Postei no Instagram achando que já tinha todos os dados e foi aí que, da Insexcoop, deixaram um comentário explicando detalhadamente o episódio como está literalmente mencionado no artigo Sexología y salud sexual. Crítica a una salud sexual en crisis y aportaciones saludables desde la sexología. O texto, escrito por Manuel A. Franco Martín e José Ramón Landarroitajauregui Garay, me ajudou a encontrar o referido livro, comprá-lo e transcrever o artigo. Assim nasceu:

“As jornadas de educação sexual ou o quê!

Em 1972 pretendia-se organizar as jornadas de educação sexual em Madri. Os organizadores solicitaram autorização obrigatória da Direção Geral da Polícia. Foi negado. O motivo: “sexual” era um termo impróprio por ser imoral e escandaloso. Eles então sugeriram “Educação familiar”. Segunda tentativa: “Educação familiar e sexual”. Segunda negação e segunda sugestão, sendo desta vez duas propostas: “Educação afetiva” ou “Educação para o amor”. Terceira tentativa: “Educação afetiva e sexual”. Terceira negação e terceira sugestão. E assim sucessivamente, até que os incansáveis ​​organizadores obtiveram a autorização obrigatória para o que viria a ser, finalmente, “Jornadas de educação familiar, afetiva e psicossexual”.

Ou seja, o que teria sido chamado de “educação sexual” (como deveria continuar a ser chamado) acabou escondendo a palavra “sexual” por trás de todas as palavras possíveis… por recomendação da Direção Geral de Polícia.

O sexo e o afeto

Terminada a ditadura, também não houve transição de ideias sobre sexo, herdando aquela visão míope da censura: uma coisa é o sexual e outra muito diferente, o afetivo, como se viu após as sugestões da polícia.

Isso não fez nada além de se enredar com aquela divisão ainda mais antiga do ser humano: o corpo e a alma, o carnal e o espiritual, o pecado e a virtude. Uma dicotomia muito bem aprendida após séculos de educação católica e algumas décadas de moral nacional-católica.

E assim nos parecia bem normal falar de sexo por um lado e afeto por outro, como se fossem coisas independentes. É comum acreditar que a palavra sexo se refere apenas aos genitais, mas explicar que não é assim precisaria de mais espaço.

Vale, para resumir, uma citação de Amezua de 2006: “O sexo não é um fato natural. Não é dado pela natureza. O sexo é uma criação dos seres humanos: feito sob sua medida, por eles e para eles. Isto é o que significa dizer que o sexo é um valor. Um valor não se improvisa, não surge do nada. Um valor é projetado e construído, cuidado e cultivado”.

Claro que todo mundo sabe que você pode tentar separar as duas coisas, “sexo” e “carinho”. Porque às vezes os encontros entre duas pessoas (ou mais) não procuram um quem, mas apenas um quê: uma experiência, uma prática específica (cordas, chicotadas, uma orgia, em público, explorando…). Mas nas vezes em que, sobretudo, se vai à procura de algo, não quer dizer que não nos afete, que não nos emocione, que gostemos ou desgostemos com quem acontece e isso deixa um sentimento e algumas emoções. A experiência é sempre completa, integral.

Toda interação humana, pelo simples fato de ser humana, nos afeta de alguma forma. Aquele suspiro, aquele sorriso ou aquela cara de nojo, aquela vontade de nos abraçar ou aquela frieza, aquela sensação que nos deu de querer ir embora… Isso não quer dizer que, como se fosse inevitável, tenhamos que falar sobre essas emoções. Às vezes o combinado (ou a dinâmica em que deriva, se ninguém os menciona) é não falar sobre eles, sobre esses sentimentos, para não nos tornarmos vulneráveis ​​e, assim, não começarmos a criar laços com a outra pessoa, a quem, talvez, queremos ver apenas por algumas horas, em uma festa, ou em uma experiência específica.

A outra maneira de tentar separar o inseparável é focar na duração, no tempo durante o qual essa intimidade é compartilhada. Dizer que um encontro de algumas horas não precisa se tornar um encontro durante um fim de semana, nem que deve nos levar a aparecer na semana seguinte com a mala na porta do nosso parceiro e daí para um relacionamento de alguns meses, um projeto de anos ou o início de uma vida em comum com todos os marcos típicos das relações mais tradicionais…

Sem dúvida, seria cansativo pensar que a primeira conversa com alguém é sempre o primeiro passo potencial que nos levará ao altar, a convivência ou sendo um casal. Mas o ponto, além dessas falsas dicotomias (sexo-afeto, sem compromisso-com compromisso etc.), é que sempre há expectativas. Se vamos nos ver apenas por algumas horas, temos a expectativa de que ele não vá embora depois de meia hora. Ou que você sente vontade de ficar mais tempo do que o planejado inicialmente. Ou que ele quer mais um beijo. Ou mais alguns minutos. Isso não significa que, se houver expectativas, elas devam ser cumpridas. Mas o fato de não falar sobre elas não significa que elas desapareçam. Elas estão sempre lá.

O problema dessa visão dicotômica do ser humano em “sexo” e “afeto” é que nos faz acreditar que podemos separar o que é indivisível, também em um campo onde nos tornamos tão vulneráveis ​​quanto aquele em que compartilhamos nossa intimidade com pessoas de quem gostamos muito.

Essa visão dicotômica (sexo-afeto, corpo-alma, corpóreo-espiritual, corpóreo-emocional, físico-mental etc.) não fala do humano. Ela fala sobre conceitos conflitantes assim como costumamos fazer com muitas outras ideias (paz-guerra, amor-ódio etc.). Separar os genitais dos afetos não é uma maneira realista de abordar os seres humanos.

Como é uma visão mais humana da sexualidade? A visão integral da sexualidade. Aquela que leva em conta todas as facetas que afetam a sexualidade humana. E elas são infinitas. Elas são toda a nossa biografia, tudo o que nos afetou (conscientemente ou não) ao longo de nossas vidas. Todo o humano. Tudo o que nos aconteceu, o que nos está acontecendo, o que desejamos e o que acreditamos que nos pode acontecer, sempre em permanente interação com o nosso meio, com quem nos rodeia, com o que se passa à nossa volta.

Educação integral em sexualidade

“A Unesco, o órgão internacional que estabelece as diretrizes na educação, fala em Educação Sexual Integral ou Compreensiva, dependendo de como é traduzida”, diz Ana Fernández em seu artigo “El error afectivo-sexual”.

Em outras palavras, o episódio de 1972 e a sugestão da polícia nos levaram a acreditar que era uma boa ideia usar “afetivo-sexual” em vez de educação sexual integral (ESI), que é a terminologia usada internacionalmente. Também por vezes referido como educação integral em sexualidade, ou EIS, abrange de forma muito mais ampla o que se acredita ser alcançado pelo termo “afetivo-sexual”.

Você pode ler mais sobre educação sexual integral no site da Unesco. Cabe destacar o que inclui essa educação integral em sexualidade segundo a referida instituição. Como você pode ver, vai muito além dos genitais.

“A educação integral em sexualidade, ou EIS, é essencial para a saúde e o bem-estar. Uma educação em sexualidade de qualidade inclui educação sobre direitos humanos, sexualidade humana, igualdade de gênero, puberdade, relações sexuais e saúde reprodutiva.

A EIS configura-se como um processo de ensino e aprendizagem baseado em planos de estudo que abordam os aspectos cognitivos, psicológicos, físicos e sociais da sexualidade. Seu objetivo é fornecer às crianças, adolescentes e jovens conhecimentos baseados em dados empíricos, habilidades, atitudes e valores que os capacitarão a desfrutar de saúde, bem-estar e dignidade; estabelecer relações sociais e sexuais baseadas no respeito; analisar como suas decisões afetam seu próprio bem-estar e o de outras pessoas; e entender como proteger e garantir seus direitos ao longo de suas vidas.”

Artigo de Miguel Vagalume publicado em Pikara magazine online em 19 de outubro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/10/relaciones-afectivo-sexuales-un-termino-de-la-policia-franquista/

Tradução: Luiz Morando.

O termo afetivo-sexual é utilizado frequentemente sem se conhecer sua origem: este foi o nome que a polícia aceitou para as jornadas em 1972. O motivo da censura era que o termo sexual, sozinho, não podia ser permitido.

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