“O feminismo já havia deixado claro que a biologia não é o destino”

“Meu desejo queer não é continuar ouvindo minhas amigas e pessoas próximas a mim dizerem que, nesse ritmo, com tantos conflitos e tão violentos nos feminismos, elas vão parar de se chamar feministas.” Em El feminismo queer es para todo el mundo (Catarata, 2022), Gracia Trujillo, professora de Sociologia da Universidade Complutense de Madri, explica os fundamentos da teoria queer e revê o ativismo no Estado espanhol, com a intenção de que seu ensaio sirva “para promover o diálogo, construir pontes e reconstruir nossas redes (e afetos) feministas”.

No Estado espanhol, o termo queer surge na primeira metade dos anos 90, graças à La Radical Gai e ao LSD [Lesbianas sin Duda]. Em 2009, nas jornadas feministas de Granada, ele irrompe com força no movimento. Por que, em 2022, um livro que explica os fundamentos dessa corrente?

Esclarecer o que é “queer”, suas contribuições teóricas fundamentais e o caminho dos ativismos feministas queer no Estado espanhol é necessário para situar as pessoas interessadas ou aquelas que, talvez, não tenham tido tempo ou recursos para descobrir do que se trata o tema. O livro é também uma resposta à reação do setor feminista transexcludente, que volta a falar em termos biológicos de binarismo de gênero e sexo, utilizando termos essencialistas como “a mulher”.

Quais dessas contribuições se destacam?

Questionar a normalidade, os binarismos de sexo-gênero e a heteronormatividade, uma questão fundamental porque, como escreveu Monique Wittig, há realidades que não são vistas pelas lentes heterossexuais. Destaco também o mergulho na perspectiva interseccional; concordo com Ochy Curiel que levar em conta todos os eixos de opressão que determinam nossas vidas dá ao feminismo uma potência muito mais radical. Preste atenção aos corpos, às identidades sexuais e de gênero, às expressões de gênero…; as teorias e os ativismos queer possibilitaram um espaço para aquelas outras vidas, corporalidades e subjetividades que o feminismo mais clássico não reunia.

Um setor do feminismo, no qual também há feministas com tradição na corrente da igualdade, hoje reivindica a diferença sexual, mesmo com base biológica. Qual é a sua leitura sobre isso?

Tentar retornar agora a uma identidade mais fechada das mulheres não é apenas impossível, mas também uma má estratégia política, dado o pano de fundo coletivo, tanto teórico quanto prático, e as lições que acumulamos nos feminismos, no plural, ao responder às emergências e à complexidade da realidade social. Retornar ao preto ou branco, além de não responder a essa complexidade, nos leva de volta a décadas; o feminismo já havia deixado claro que biologia não é destino. Além disso, essa posição está funcionando como um grampo com os da extrema-direita, que afirmam que meninas são meninas e meninos são meninos e que não há meninas com pênis e meninos com vulvas. Em consonância com isso, um amigo observou que, nos últimos anos, feministas denunciaram o ônibus transfóbico da organização Hazte Oír e que, hoje, algumas viriam montadas nele.

Você acha que esse retorno ao “preto ou branco” pode ter a ver com a forma como o movimento queer tensionou a questão da identidade?

A partir das práticas políticas e das teorizações queer, levantou-se uma crítica à construção das identidades quando estas deixam os sujeitos de fora, ao mesmo tempo em que são pensadas ​​estrategicamente. Isso é o que Gayatri Spivak chamou de “essencialismo estratégico”. O que está acontecendo é que há uma guerra aberta contra esses feminismos, queer, de base, anticapitalistas, antirracistas, autônomos, os quais o setor feminista transexcludente não pode controlar. Passamos anos ocupando espaços não só nas ruas, mas também nas políticas identitárias, no sentido de que pensamos mais no que nos une do que nas nossas identidades, que muitas vezes nos isolam. Isso não quer dizer que as identidades não sejam mais necessárias; acho que, como ficções políticas, ainda nos servem estrategicamente em muitos momentos. Ainda hoje temos que dizer que somos mulheres, migrantes, lésbicas, trans, racializadas etc. Por outro lado, a reação transexcludente tem um componente de classe e racial muito importante porque, na minha opinião, a luta antirracista está nos feminismos queer, transfeministas (com nossos erros e aprendizados coletivos), muito mais do que naquele setor feminista transexcludente que, em geral, é mais institucional, acadêmico, e se baseia em espaços de poder, mais preocupado em defender seus privilégios do que em ouvir e atender outras realidades distantes daquelas áreas.

Às vezes tenho a sensação de que o ativismo queer reivindica os direitos autorais dos eixos de opressão, quando muitas das feministas “históricas” que não aderem a essa corrente hoje já questionavam em seu tempo o que chamavam de “norma heterossexual”, sobretudo os grupos de lésbicas, ou forjaram sua cultura política em partidos anticapitalistas.

O anticapitalismo não foi inventado a partir dos ativismos e das teorias queer, mas a perspectiva interseccional foi colocada na mesa, mostrando que nem todas as pessoas têm os mesmos recursos materiais, a mesma cor de pele, a mesma idade, as mesmas habilidades. mesmo nível educacional, entre outros possíveis eixos de opressão. Esse olhar interseccional também nos possibilitou questionar nossos próprios privilégios de classe, branquitude, cidadania ou o que quer que sejam. Os ativismos queer e anticapitalistas vêm quebrar o discurso da esquerda mais clássica, que continua dizendo que essas lutas dividem, que a diversidade é o que impede a esquerda de avançar, e continua acreditando que ela se dedica aos direitos da classe trabalhadora e os nossos – de gays, lésbicas, bissexuais e trans, ou seja, os menos importantes. Como se também não fôssemos da classe trabalhadora ou pudéssemos estar desempregados! Ou como se os empregos mais precários não fossem normalmente ocupados por mulheres migrantes, muitas vezes sem documentos! Algo fundamental que a luta transbichasapa ou queer/cuir suscita é o questionamento do sujeito clássico do movimento operário, que é o pai de família, homem, branco e cisheterossexual. Nós outras, nós outres, estamos em todas as lutas porque estamos em todos os lugares e porque, sendo assim, tudo nos afeta: os cortes na saúde pública, na educação, nos serviços sociais… Não inventamos o fogo, temos muitos legados ativistas e devemos reconhecê-los. É por isso que no livro coloco tanta ênfase em nossas genealogias políticas. Falo de correntes, que muitas vezes se sobrepõem, de conflitos nos ativismos, que nem sempre concordaram entre si; sem ir mais longe, o próprio termo queer é um guarda-chuva que também tem seus buracos, que não cobre a todos igualmente.

Os apelos à união entre feministas, que aparecem espalhados ao longo do ensaio, são apreciados.

Alguém vai pensar que estou sendo muito otimista ou ingênua; espero não ter muito de ingenuidade… Quando escrevi o livro pensei em todas as companheiras, companheires, com quem ainda podemos conversar. Com isso, quis dizer que há uma parte com a qual, infelizmente, não podemos mais fazer isso, porque se alinharam ao discurso de ódio e essa é uma linha que não pode ser cruzada. Tem muita gente perguntando o que está acontecendo com “o queer”, por que essa raiva com o feminismo, não se entende nada… Por isso, creio que é o momento de negociar os dissensos que temos nos temas sobre os quais ainda podemos conversar e buscar pontos em comum. O inimigo lá fora é muito claro sobre quem ele está enfrentando: contra nós que, enquanto isso, estamos engajadas em lutas muito estéreis e, às vezes, muito violentas.

De tanto reivindicar “habitar as margens”, estas não estão lotadas demais?

Quando falamos em viver à margem desse sistema heteropatriarcal, racista e classista, é importante levar em conta o contexto. Viver neles não é legal, nem divertido, nem moderno, porque implica ter sido expulsa do centro, o que representa nem mais nem menos a possibilidade de uma vida vivível, livre de violências, com direitos, liberdades, com legitimidade e com visibilidade. As margens são a violência, como mostra muito bem Leslie Feinberg em seu livro Stone butch blues, recentemente traduzido para o espanhol e cuja leitura recomendo vivamente.

Que valor tem, então, reivindicar as margens se, além disso, o feminismo exige colocar aquilo que é urgente, como o cuidado ou uma vida digna, no centro?

O trabalho de bell hooks Teoria feminista: da margem ao centro [Ed. Perspectiva, 2019], agora com quase quatro décadas, defendia colocar questões importantes no centro e ver o que acontece ao seu redor. Desde a crise de 2008, com o 15-M, e agora com a pandemia, a urgência com os cuidados redobrou. Focamos muito mais em quem cuida e naqueles que têm que fazer um malabarismo para sustentar o cuidado em casa, na precariedade de quem perdeu o emprego ou nas pessoas LGTBI que retornam ao armário quando precisam voltar a viver com a família. Essas questões realmente precisam estar no centro de nossas práticas políticas. No entanto, as margens podem ter outro significado. Quando as reivindicamos a partir de posicionamentos queer é para mostrar que esse sistema não nos inclui nem queremos que ele nos inclua; que eles não contam conosco em um sistema heteropatriarcal, racista, classista que gera tantas violências. Por exemplo, nas décadas de 1980 e 1990, os feminismos autônomos nunca defenderam as mulheres lutando para entrar no Exército, o que queríamos era acabar com isso. Ou, quando o casamento igualitário foi debatido, o Grupo de Trabalho Queer, o Grupo de Feministas Lésbicas de Barcelona e algum outro coletivo levantamos nossas vozes porque, para nós, o casamento não era a demanda prioritária. Viemos de toda uma luta dos anos 70 de amor livre, de outras formas de relacionamento sexual e afetivo, de outros tipos de famílias… Por que nos colocarmos em uma instituição monogâmica que, historicamente, foi uma prisão para mulheres? Por que não uma lei de parceria doméstica em nível estadual que, aliás, nunca foi alcançada? Obviamente, não estamos lutando contra as pessoas que queriam se casar ou contra o progresso legal que significava casamento igualitário, adoção e filiação. O que queríamos a partir de posições mais queer era não perder de vista os horizontes para os quais caminhávamos. E seguimos com essas posições. Em última análise, acredito que o termo “margens” tem dois conceitos diferentes. Um, reivindicar direitos e liberdades para as pessoas excluídas do sistema; outro, preferindo ficar nessa margem, como metáfora de um lugar crítico com um sistema violento que reproduz desigualdades e com o qual não queremos ser cúmplices ou com o qual não queremos colaborar. Além disso, das margens se observa melhor, para continuar transformando radicalmente.

Em seu livro, você aponta que “grupos queer compartilham uma série de elementos, como a crítica à política identitária e suas exclusões, enquanto fazem uso estratégico, de maneira pontual, das identidades”. Na prática, eles não vieram, antes, para sustentá-la?

“O queer” suscita a crítica ao binarismo sexo-gênero: não há duas caixas homem/mulher; masculino/feminino; heterossexual/homossexual… Não são apenas duas opções, mas infinitas possibilidades; a mesma pessoa pode mudar sua identidade de gênero ou orientação sexual ou não, e todas as opções são legítimas. Assim, a proliferação identitária é uma estratégia política que questiona o binarismo, deixando de fora muitas realidades, experiências de vida e corporalidades. A alternativa proposta pelas teorias queer é articular identidades sexuais e de gênero para que sejam o mais porosas e inclusivas possível, sem perder de vista que são atravessadas por outros eixos de opressão. Que “o queer” pretende destruir as identidades e nos deixar como se estivessem “movendo o chão sob nossos pés”, como se diz na América Latina, é um equívoco comum. O que estamos fazendo é criticar a exclusão gerada por certas construções identitárias, tendo em vista que ainda precisamos delas.

De fato, as identidades se apresentam como desvios táticos, mas, como sustenta Tere Maldonado, parece que estamos fadados a viver nelas, como se fossem um fim em si mesmo. Nesta entrevista, Sejo Carrascosa alertou que “não estamos questionando a heterossexualidade compulsória”, em consonância com o fato de que as políticas identitárias “são o equivalente às políticas neoliberais e nos confinam porque partem de uma abordagem absolutamente interseccional”. Ele diz que “podemos ser hiperidentitários, mas não saber brincar com as identidades nos levou a rebaixar a carga reivindicativa”.

Totalmente de acordo com ambos. Podemos pensar em identidades em termos individuais e coletivos. Interesso-me por esta última, que se resume em articular identidades para sair às ruas e reivindicar direitos ou protestar contra a violência e as discriminações ou simplesmente dizer: “Aqui estamos, existimos e reivindicamos nosso direito de ser livres e viver como quisermos.” O importante é que ativemos essas identidades que, além disso, podem mudar ao longo de nossas vidas e, também, a prioridade política que queremos dar a elas quando nos interessa: o de ser mulher, sapatão, do interior, da classe trabalhadora…

Acredito que, na prática, a explosão de identidades priorizou o ser sobre o fazer e isso contribuiu para setorizar as lutas e desmobilizá-las. Quase à revelia, questiona-se a autoridade de opinar ou fazer alguém que não seja o que pensa ou faz. Deixe-me explicar: parece que quem não é sapatão, trans, prostituta, racializada ou muçulmana não pode mexer com orientação sexual e identidade de gênero, com prostituição, com decolonialidade ou com o patriarcado como ideologia central em todas as religiões monoteístas, inclusive o islamismo. O que você acha?

Seria interessante analisar como os feminismos têm lidado com isso. É verdade que se você não é o principal sujeito político da luta, sua participação pode estar em questão; espera-se apenas que você ouça e colabore. Acredito que esses sujeitos devem ter a voz principal, mas levar isso ao extremo exclui alianças, empatia e solidariedade. Às vezes, por medo de ser falado em nosso nome, de ser protegido, vamos a extremos que efetivamente nos impossibilitam de nos unir em lutas que têm muito em comum. Tendo dito tudo acima, também não estou fazendo uma defesa de capa e espada de “o queer”. Como qualquer corrente filosófica e política, como qualquer constelação de ativismo, ele tem seus pontos fracos. Nada é perfeito. O que eu acho interessante sublinhar, retomando o início da sua pergunta, é que queer não é uma identidade, não é tanto ser queer quanto estar queer, em todo caso. É mais um adjetivo, política queer, ou um verbo, um fazer queer ou queerizar, no sentido de atravessar, transformar, transgredir, como dissemos nos manifestos transfeministas.

Refletindo sobre “o queer” no campo educacional, você aponta: “Na medida em que nós, como docentes, trazemos para o espaço educacional essa paixão [a busca do conhecimento], esse amor pelas ideias que somos capazes de inspirar, aquele espaço se torna um lugar dinâmico onde as relações sociais podem ser transformadas e onde a falsa dicotomia entre o mundo interno e o externo da academia desaparece”. Isso não é colocar muita responsabilidade individual em cada professor? Isso não é ignorar a guetização das escolas, os cortes na educação pública para priorizar a educação concertada e privada, os acordos do Vaticano? Não é desconsiderar que para melhorar o espaço educacional são precisos, antes de tudo, recursos e projetos governamentais alinhados?

“O queer” não está desvinculado de questões materiais; a perspectiva interseccional coloca-os no centro do nosso olhar e da nossa prática quotidiana nas escolas. Quando falo em tentar transformar o espaço educacional, penso em termos coletivos: em redes e na coordenação de professores para tentar pensar e educar para além dos binarismos e de algumas práticas escolares tão naturalizadas que nem são vistas. Sem recursos é difícil mudar alguma coisa, mas sem rede e sem um corpo docente mais coordenado e consciente também. Ou sem mobilização coletiva fora da sala de aula. A própria instituição de ensino tem muita hostilidade em relação a esses outros discursos e formas de fazer as coisas. A visão queer da educação questiona as dicotomias com as quais convivemos: teoria e prática, mente e corpo, alta e baixa cultura, sucesso e fracasso escolar, academia e ativismo… Nesse sentido, as universidades da América Latina, por exemplo, têm muito mais contato com a rua, são centros de pensamento mais ligados à realidade social e ao ativismo em geral. Além disso, a abordagem queer fornece modos de análise que são fundamentais para prevenir as violências contra corpos e expressões de gênero não cisheteronormativas. Temos que tentar gerar mais espaços horizontais, usar outros discursos e outras metodologias… o que é muito difícil porque esbarra na mesma coisa: recursos insuficientes, proporção muito alta, docentes precários, uma educação pública que devemos continuar nos defendendo das políticas neoliberais e do avanço das forças conservadoras sem ter as melhores condições de trabalho… Às vezes, a tentação é dizer: “Olha, eu dou minhas aulas e…”.

Ligada ao exposto, a teoria queer dá grande ênfase ao reconhecimento e ao simbólico, algo que o neoliberalismo facilmente engole, basta olhar para as paradas do orgulho. E a redistribuição?

No livro, reúno o debate sobre a redistribuição e o reconhecimento entre Judith Butler e Nancy Fraser; não pode haver reconhecimento sem redistribuição, que andam de mãos dadas. É fundamental reconhecer as pessoas trans através, por exemplo, da mudança de nome no DNI [Documento Nacional de Identificação], mas também da redistribuição de recursos materiais para que possam ter acesso a trabalho, habitação, educação, recursos de saúde e um acompanhamento especializado e de qualidade, entre outras coisas.

Itziar Abad entrevista Gracia Trujillo. Publicado em Pikara online magazine em 7 de setembro de 2022. Disponível em https://www.pikaramagazine.com/2022/09/el-feminismo-ya-habia-dejado-claro-que-la-biologia-no-es-destino/

Tradução: Luiz Morando.

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