E para a tosse, LGBTQIA+fobia

As agressões LGBTQIA+fóbicas parecem estar cada vez mais visíveis: aquelas que envolvem violência física começam a aparecer na grande mídia (embora nem sempre nominalmente) e a ocupar a agenda. É inegável que os discursos de ódio da extrema-direita espanhola estão alimentando com determinação esse assédio. Mas não é necessário que Santiago Abascal venha a cavalo para que haja uma LGBTQIA+fobia cotidiana, mais silenciosa, que pode ocorrer na escola, no instituto, no trabalho, em casa ou no posto de saúde. “Ir ao médico” é uma das ações que mais retrai muitas pessoas LGBTQIA+. Por que será?

“Vocês dois têm buceta? Ahh, não se preocupe, então você não pode transmitir o papilomavírus humano para si mesmo.” “Você é gay? Uhh, essa erupção [dermatite] pode ser câncer de pele.” “Se você não fez sexo com penetração, não precisa fazer o Papanicolau!” “Senhor, sua vez. “Hein, eu sou ‘senhora’.” “Sua menstruação acabou? Quando você se apaixonar, ela voltará…”. “Assexual? Não diga isso! Você vai encontrar alguém”.

(Des)orientação

No dia em que minha ginecologista me pediu para explicar o que significava ser bissexual (em 2018), fiquei surpresa. Pensei: eu pareço uma pedagoga? Mas não, o que aconteceu é que ao invés de se informar e se formar em diversidade (pesquisando no Google ou baixando do Twitter, ou, caramba! vivendo no século XXI), ela preferiu violar uma paciente. E acredite, falar de bissexualidade não me incomoda – faço isso por horas sem quase respirar –, mas que uma pessoa em cujas mãos está minha saúde explicite não saber quem sou, é bastante perturbador.

Algo parecido aconteceu com Ari, que foi à sua primeira consulta com o médico de família e não imaginou os caminhos de um roteiro de filme B que a conversa tomaria: “Lésbicas também vão a saunas?” Quando lhe disse que achava que estava desviando do assunto (preencher seu formulário), o médico respondeu: “Bem, pergunto porque tenho muitos pacientes gays, mas ainda não tive pacientes lésbicas”.

Na consulta esperamos uma atenção respeitosa e profissional, no entanto, muitas vezes a ignorância e os preconceitos vêm à tona e é fácil para todos aqueles que rompem minimamente com a norma perceberem isso.

Mas apesar de tudo, sigo sendo heterossexual

Embora o ginecologista de Ari saiba há anos que ela é lésbica, toda vez que ela vai ele pergunta: “E o seu namorado?” “Não existe namorado! Vou ter que sublinhar com marcador em suas fichas”, responde. Este médico não é exceção. A presunção da heterossexualidade é um dos braços fortes da LGBTQIA+fobia. Consiste em assumir que todos são heterossexuais, e que ser heterossexual também envolve genitalidade pênis-vagina, estilo de vida monogâmico e práticas coitocêntricas. Parece que tudo o que sai do estreito quadro da doutrina produz estranheza.

“É muito comum, quando você faz uma intervenção ginecológica, que eles digam que você não pode ter relações sexuais por um período X de tempo. Isso me incomoda muito porque eles dão como certo que essas relações envolvem relação sexual ou penetração e eu sempre tenho a dúvida se posso me masturbar, ou se podem me fazer sexo oral”, explica June. Nesse sentido, Ena diz que quando disse à enfermeira que não estava interessada neles, nem sentia desejo de ter relações sexuais, “a enfermeira relacionou isso ao ‘celibato’ porque sabe que sou uma crente praticante. Mas ser assexual é uma orientação!” Se não soar hetero, Found Error 404.

As instituições protegem a heterossexualidade como ouro em tecido. Tem tanto peso que é uma das razões pelas quais as mutilações genitais continuam a ser realizadas em bebês, atualmente sob a proteção da lei. “Em certos bebês intersexo, por protocolo, geralmente é recomendado construir uma vagina do zero se não houver nenhuma ou aumentá-la se for considerada mais curta do que o estipulado”, explicam Mer Gómez e Laura Vila Kremer, do coletivo I de Intersexo. Esta intervenção destina-se a que a pessoa possa desfrutar de uma vida normal. A tradução? “Uma vagina é construída para que amanhã possa abrigar perfeitamente um pênis”, explicam Mer e Laura. A perspectiva que seu grupo defende é a de “respeitar as orientações do desejo, ensinar que as práticas sexuais são muitas e muito diversas, e sobretudo entender que o importante é que quando aquela pessoa cresce e amadurece, ela decide”, assim como resolver que “uma vaginoplastia não pode ser realizada por convenções cis-heterossexuais”.

Héctor Adell é técnico da Stop Sida e reflete sobre por que não há campanhas de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST) para heterossexuais. “Eles entendem que seu sexo não está em risco. Por isso, nós da Stop Sida e de muitas outras entidades e movimentos políticos reivindicamos que os grupos não são de risco, mas as práticas sim; que continuar a focar em grupos gera estigmas e estereótipos”, critica. Rafa sabe muito bem disso: quando teve sarna, “deram como certo que ele pegou porque fazia sexo com desconhecidos”, diz ele, ou Mar, cujo médico lhe negou um teste de triagem de IST e perguntou se ela era uma trabalhadora do sexo quando se inteirou de sua bissexualidade. Ou Dídac, que teve uma gonorreia muito dolorosa e ao tirar uma amostra anal de forma brusca, reclamou, e eles ficaram surpresos “ah, mas o que dói?”.

Restrição de acesso a tratamentos

Outra forma de violência recorrente no sistema de saúde é a dificuldade de acesso a determinados medicamentos, como conta a organização não mista de pessoas transfemininas Sororitrans: “Receber prescrições de hormônios muitas vezes ainda representa um desafio. Comprá-los também não é fácil. Ao longo dos anos assistimos a uma redução progressiva da disponibilidade de muitos medicamentos utilizados na transição médica, começando pelo Estradiol injetável, retirado do mercado por divergências entre o Estado e os laboratórios em 2008, e passando por outros medicamentos como Meriestra, retirado em 2016, ou mais recentemente com sérios problemas de abastecimento de drogas.” A esse respeito, também I de Intersexo levanta esse problema. Em muitas intervenções em pessoas intersexo “as gônadas são retiradas, e como você para de gerar esses hormônios, você tem que tomá-los como substitutos, caso contrário, a osteoporose precoce geralmente aparece. Mas se não houver abastecimento…”

Trânsito a partir de dentro

Translocura é enfermeira e comenta que começou sua transição já no trabalho atual: “Nos primeiros dois meses eles me conheciam como um tio bicha Femme e eu achava que seria muito mais complicado para os usuários aceitarem a realidade trans e verem alguém trans fora do show, ver que é uma pessoa que tem outras funções. Mas acontece que é mais chocante para os colegas e para seus pais do que para os usuários, talvez também por uma questão de hierarquia.

Um dos integrantes de Sororitrans ressalta que, embora tenha sido em 2018, quando a Organização Mundial da Saúde retirou a transexualidade de sua lista de transtornos mentais, “ideias patologizantes ainda estão presentes”. Por isso, Translocura diz que alguns usuários perguntam se ela está em um programa de integração ou se recebe algum pagamento. E com remuneração não se referem ao salário, mas à ajuda do Estado por ser uma pessoa trans. “Dar essa visibilidade e dar a cota de trabalho é muito importante e normaliza nossa existência. E sempre em uma perspectiva multissetorial e transfeminista, senão é inútil”, conclui Translocura.

Trinidad Lacalle fez o exame MIR (Médico Interno Residente) há cerca de um ano e está começando a praticar como médica. Antes de assumir o cargo, surgiram muitas dúvidas sobre como se expressar e como se nomear. Ao longo de sua carreira, ela conheceu bem os padrões de vestimenta médica, que são sempre clássicos e formais e emasculam qualquer heterodoxo (o único “hetero” que eles não gostam). Trinidad conta que essa aparente regulamentação sempre chamou sua atenção, principalmente na carreira, quando se trata de gente tão jovem. Como ser você mesma em uma ilha tão cinzenta?

Contavam-lhe histórias sobre ternos e gravatas durante a semana e látex nos fins de semana. “É a ideia de que no trabalho você segue os códigos que mais podem aumentar sua produtividade e, quando tiver tempo para si, será você mesma.” Trinidad decidiu que não se tornaria as lascas de uma borracha Milan: “Se eu me invisibilizasse, me sentiria traindo todas as pessoas de nossa condição de dissidente, porque isso afeta nossa saúde, entendendo ‘saúde’ também em seus determinantes sociais.” Ela também se preocupava com que sua expressão pudesse gerar conflito nas/os usuárias/os, embora admita que não lhe parece válido que outras pessoas tenham problema com sua identidade: “Confrontar essa pessoa também faz parte de gerar saúde. É enfrentar um modo de ser – seja LGBTQIA+fóbica, ou classista, ou racista – que adoece a sociedade”.

Assistência de saúde com perspectiva LGBTQIA+

Rosa Almirall é idealizadora e gestora do Trànsit, serviço que promove a saúde de pessoas trans*. Isso, ela explica, “implica desde ouvir ativamente, sem julgar, entender que trans* inclui um amplo espectro de maneiras de sentir sobre gênero, até respeitar os tempos e os passos de cada pessoa. É um tratamento de especialista em especialista, ela em sua identidade e nós em acompanhá-los. Valorizamos o emocional e o social”. Rosa também entende a saúde como algo muito mais amplo do que “o médico”. “É preciso formar os futuros profissionais de saúde na diversidade”, salienta.

O mesmo opina Pepita Giménez, professora da Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade de Barcelona, ​​​​que, ao ver todas as dúvidas que seus alunos tinham nas aulas que ministrava, sentiu a necessidade de criar uma disciplina sobre atendimento a pessoas trans* no curso de Medicina. “Sempre que falávamos sobre diversidade de gênero, ficava aquém”, lembra ela. Alguns anos atrás ela começou pôs mãos à obra, bateu em portas e começou a se informar para transmitir do ponto de vista das pessoas trans*.

O plano de ensino da disciplina, que tem uma visão biopsicossocial, inclui como competências e objetivos específicos a perspectiva de gênero, a compreensão do peso do gênero na sociedade, bem como a importância do acompanhamento e cuidado em uma perspectiva despatologizante. “Os profissionais de saúde cometem muitas agressões e talvez não percebam, mas o usuário sim. Por isso, esse assunto é importante. Você tem que começar a omitir perguntas sobre genitalidade quando não se trata de ‘o que importa para você se uma usuária tem pênis ou não, se ela vem com uma otite!’. Às vezes parece que até um resfriado é culpa dos hormônios… Estamos tentando transmitir um tratamento cuidadoso”, diz a professora.

Na mesma linha, o grupo I de Intersexo denuncia que na atenção primária é muito recorrente que nos casos em que um “diagnóstico” apareça na história com a palavra “transtorno” ou “anomalia”, “embora você vá lá para que prescrevam um xarope para a gripe, começa a bateria de perguntas, silêncios e olhares estranhos; Eles olham para você como a um unicórnio. “A solução passa por uma perspectiva de gênero. Mas não há formação em corporeidades que não sejam binárias, se não for como doença”, retratam.

Estratégias contra toda essa merda

Carmen Llorca é socióloga e está fazendo sua tese de doutorado sobre a resistência que lésbicas/sapatão articulam em relação às violências e desconfortos que vivenciam no sistema de saúde, especificamente em relação à saúde sexual, reprodutiva e mental. Ela procura compreender para desenvolver estratégias comuns.

O sistema de saúde centra-se no sujeito masculino e é cisheterossexual ou heterocêntrico. Esta é a hipótese da qual parte: “Quando você vai à consulta ginecológica e eles te falam sobre ‘métodos de barreira’, em geral, suas práticas são tidas como certas. Supõe-se que você é heterossexual e que heterossexualidade é igual a relação sexual.” Por isso, e por muitos outros motivos, muitas lésbicas/sapatão não querem ir ou demoram a voltar à ginecologia, o que empobrece a saúde de quem está à margem.

Carmen Llorca compartilha duas estratégias nessas situações: criar uma rede de terapeutas ou ginecologistas recomendados entre amigos e ter uma série de respostas preparadas para possíveis perguntas ruins ou comentários desconfortáveis.

Artigo de Berta J. Luesma publicado em Pikara online magazine em 7 de setembro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/09/y-para-la-tos-lgtbqiafobia/

Tradução: Luiz Morando.

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