Paranoias reais – revisão da perspectiva de esquerda 2018-2022

Escrevo para que eu mesma possa entender. Com fome, falta comida em casa, mas ainda tenho internet e um desktop cuja fonte range e, de tempos em tempos, cheiro-a para verificar se não sai um mau-cheiro de queimado. Mais um exemplo banal da ex-classe-média-baixa cuja nomeação pode se seguir da contemporânea sociologia do trabalho (penso em Ricardo Antunes): o precariado – aliás, a própria ex-classe-média-alta já não anda tão bem ultimamente. Seguimos com um ressentimento de classe, nos voltando contra os coleguinhas que têm um pouco mais, mesmo que na prática todo mundo esteja fodido; isso aí, nós que nos identificamos como “esquerda” – e mesmo nunca tendo sido leninista, realmente me parece uma doença infantil de quem, pretensamente, se volta a uma modificação social. Vou, pelo menos, tentar ver o que dá pra agarrar pela raiz; se não der, que seja rizomal, ou se já, alguns pontos descontínuos das redes pelos quais passei nos últimos quatro anos. Vamos lá – laisse-moi.

Alguma coisa de perigosa rondava o espetáculo. Guy Debord já havia falado que o capital havia se acumulado tanto que se tornara imagem, mas não estou em condição de dissertar sobre o que isto possa ser afinal. Um idiota aparecia de vez em quando no CQC, aquele programa do Marcelo Tas, que hoje em dia faz uma péssima substituição do Abujamra na TV Cultura. Lá por 2011 era divertido ver esse cara falando um monte de merda. Me parecia que todo registro que via, televisão, jornal, ele se mostrava uma pessoa que necessariamente expressava ódio. Todavia, eu ria, bem como todo mundo. Um deputado lá de São Paulo. 2013, ele aparecia ainda, mas, mesmo antes das Jornadas de Junho, nossas preocupações se relacionavam a personagens como Marcos Feliciano e Renan Calheiros. Um tio meu, hoje seriamente afetado pelo fenômeno que este senhor se tornou, naquela época repudiava essas figuras. Havia um certo consenso de que a institucionalidade brasileira havia dado errado e que era preciso fazer alguma coisa. No subtítulo que coloquei, falo de 2018-2022, então a etiologia possível neste prelúdio acaba aqui. Muita gente no meu meio social intui, seriamente intui (para além de qualquer formulação teórica), que há uma certa sensação análoga a Maio de 68: 2013 gerou uma puta duma ressaca que vivemos até hoje.

Logo em janeiro de 2018, tinha um certo ar de que o Lula, talvez, pudesse se eleger. Depois se concluiu aquela maracutaia jurídico-midiática e deu no que deu. Colocaram um professor pastel da USP no lugar dele; só podia dar certo. Nem quero falar do Lula nesse sentido, da legitimidade ou não deste processo; não me interessa. Se as eleições de 2014 já haviam dividido um pouco as pessoas, o decorrer de 2018 dividiu de fato. Teve um clima, entre nós, de interdição do discurso; excluir pessoas das redes-sociais e tal. Até então, mantínhamos convívio com muitas dessas pessoas normalmente, de modo que o narcisismo típico deste modo de produção da subjetividade colocava algo que, no final, era um crivo estético: “não quero que vejam que tenho tal pessoa no Facebook”. Havia ainda uma galera mais prudente que via que interditar as coisas não era fecundo. Produziram vários materiais sobre fascismo; dos que circularam bem, o que penso ser até hoje (e por um bom tempo), o melhor é um vídeo que o Vladimir Safatle fez pra Cult. Ele, literalmente, alertava que para o discurso fascista permear era necessário um grau cômico. Lembro bem da comédia do David Wnendt, Ele está de volta, em que diante de um retorno estranho (usando os termos do Todorov) de Hitler, uma idosa demente diz: “Naquela época a gente também ria, mas eu sei o que você fez”. Acaba ocorrendo uma revisão radical dos termos de normalidade e patologia, mas ninguém liga. Nós, que somos tão cultos, que batalhamos por um mundo melhor e, sem falsa modéstia, somos uma referência de moralidade, continuamos consumindo o humor satírico mais banal relacionado a Bolsonaro. Tem que rir pra não chorar, né?

Fazendo uma incursão na tarde de hoje, enquanto esperava na fila do restaurante universitário para exercer o privilégio de fazer uma refeição razoável por R$3, vi um cartaz dum open-bar que colocava em estilo cartoon o sr. Presidente levando uma pancada do ex-presidente Lula. Venceremos – já é um fato, basta ver a estatística. 2018 seguiu, fomos às ruas com uma certa reticência, mas para dizer #elenao. Veio o primeiro turno, fui votar de ressaca numa manhã chuvosa de outubro. Aliás, esqueci de algo de suma importância. Cerca de um mês atrás fui invadida por um ódio muito profundo, o qual não pude exercer de maneira eficiente: de novo, sei lá, pela décima ou vigésima vez, depredaram um grafite em homenagem a Marielle Franco aqui na minha cidade. Em março de 2018, havia uma certa sensação de horror em nossos meios de convívio. Um assassinato brutal e evidentemente executado com maestria; coisa de profissional. Lembro daquele disco do Kreator, referenciado numa série muito querida por mim que se concluiu em 2020 – Pleasure to kill. Na época, fiquei meio pasma com como aquilo havia me afetado; uma colega me disse algo assim: “como não se afetar com uma vereadora sendo assassinada?”. Em sentido genérico, o assassinato de alguém vinculado a este estado burguês-neocolonial-imperializado não me surpreende e tampouco me afeta. Mas a morte de Marielle é algo que ainda me abala de alguma forma que não sei explicar. Depois veio o segundo turno; fui votar já bêbada e só lembro de ver a fotinha da Manuela D’Ávila e do Haddad em preto-e-branco. Acordando no dia seguinte, coloquei (e soa irônico pra quem conhece a história do heavy metal) Noregsgard do Storm pra tocar. Nunca pensei que o resultado de uma eleição pudesse me fazer chorar.

Uma vez que ameaçaram as universidades, fomos às ruas. Havia uma energia, algo pulsante. Cheguei a ajudar na organização de uma manifestação autônoma, que fugia da centralidade do movimento estudantil e dos sindicatos. Algo realmente orgânico, uma força que colocava em questão o que define de fato o que fazemos: estávamos lutando contra o estabelecido e sem aval do estabelecido. Uma verdadeira manifestação pressupõe o medo contínuo de apanhar da polícia, logo a organização relativa a isso que fortalece a coesão e a nós próprios. Algum idiota apegado a retóricas de assembleias vai falar que estou criticando a coesão da esquerda, o necessário centralismo democrático do que fazemos. Não tem nada a ver. Nietzsche já falava que algo bem caro à juventude é a inabilidade à arte da nuance. Se não fica claro, quero dizer que a fragmentalidade e a heterogeneidade de um movimento não anulam sua coesão geral.

Chegou 2020. Especificamente o mês em que fazia dois anos do assassinato de Marielle. Não aprendemos ainda a falar muito bem disso. Depois do assassinato de George Floyd, algumas poucas pessoas no Brasil se dispuseram a ocupar as ruas.

2021. Não dava mais. Eduardo Taddeo já tinha uma tese profunda sobre a periferia de São Paulo ser um campo de extermínio da classe trabalhadora. A pandemia foi condição de possibilidade para a extensão em absoluto dessa necropolítica. Corremos risco, em função de nossos próprios corpos. Dava até pra abstrair o medo da polícia – coisa prudente em qualquer manifestação de esquerda. Tinha gente levando criança pras manifestações, argumentando que era educação política. Não tiro o mérito, mas é um risco. Tinha, lá por setembro, um certo delírio; de que o Lula poderia ser o primeiro presidente a ganhar em primeiro turno, e Bolsonaro o primeiro a não ser reeleito.

Vai passando o tempo. As estatísticas, aqueles dados em que outrora já desconfiávamos tanto, começam a apontar prum horizonte que instiga nossa nostalgia; um passado longínquo (qualquer coisa anterior a 2020 é longínqua). Começamos a tecer. A tez de nosso ser é a imagem de Cristo, ressuscitado para nos salvar. Começamos a contar com a astúcia de Um homem.

Neste contexto, a energia insurrecionária se torna uma melancolia. Seguindo a tese psicanalítica, a melancolia sempre acaba sendo acompanhada de uma mímese em relação ao objeto perdido. É divertido pensar assim. A esquerda se tornou uma lambe-botas da burguesia, agora de maneira muito mais obscena. Parece não haver força vital para fazer algo. As ameaças de golpe se tornaram parte banal do espetáculo. Não fomos suficientemente esvaziadas para fazer algo, subsiste a fé, a esperança. Esperar sem temperança. O último mal da caixa de Pandora. O desejo da burguesia internacional é evidente, mas nosso trabalho estranhado de compartilhar memes reifica nossa própria subjetividade. Somos não mais que mercadoria. Corpos farmacopornográficos dispostos a cuidar da “saúde mental”. Dá-lhe o hedonismo, o tinder, o grindr e os amores mortos que sublimamos na imagem do Pai (vide um meme do cara que tirou foto da própria mãe vendo o discurso do Lula ano passado). Não nos sentimos suficientemente mal. Não arrancaram o que temos a perder. E fica até tentador buscar refúgio em teses adolescentes como do aceleracionismo. Aliás, tampouco existe sublimação – Guattari demonstrou muito bem. Devemos é ter um prazer muito mórbido nisso tudo. E eu vou continuar escrevendo isso aqui? vale a pena. A atitude mais espontânea é pensar na galera que tá na rua passando frio agora, sentindo mais fome que eu. Mas aí lembro que antes eu não via tanta gente assim. Que meu bairro não era tão habitado por gente em situação de miséria. Que é melhor colocar o próprio corpo à prova, porque não vai haver violência divina pra parar isso.

2018, retomar o ponto em que queria chegar. Lembro bem de uma colega, jornalista, que excluiu o próprio Facebook com medo de perseguição política. Nada aconteceu, ainda.

Me divirto com algumas lembranças. Uma professora sindicalista esnobando a galera que “preferiu aquilo a um professor”. Sério mesmo? Queremos tanto ensinar que não aprendemos. Quem votou no Bolsonaro naquela época é culpado por não saber, essa é a lógica da pedagogia: as massas precisam ser educadas por aqueles que já expiaram a culpa a priori. Mas aí você cita Paulo Freire numa reunião da sua categoria e tudo bem. Mas aí tem aqueles gestos “antropológicos” que consistem em ouvir a pessoa que pertence praticamente ao mesmo estrato social que o seu a fim de tão somente fingir que absorve algum conhecimento e, então, poder responder com a verdade. Se nossas verdades fossem tão fortes, não disputaríamos cargos políticos e nem a política disputaria nossos cargos de seres morais e dotados de razão. Mas lembrem-se, votar no Lula só no primeiro turno é indigno! Há anos venho notando o monopólio que a direita tem do discurso. Basta um imbecil do MBL falar uma bobagem que nos articulamos sistematicamente a responder. Resultado: não determinamos a produção pública do conhecimento de esquerda. Se de um lado há uma verborragia que pretende superar a opressão, de outro há ouvidos atentos à retórica dos inimigos. Esse monopólio se tornou latente quando nossos propósitos se tornaram uma estrita masturbação do estado burguês de direito. Em abstrato, cansamos de saber que o fascismo trabalha com outro registro do próprio direito, capaz de mudar o estado de coisas do dia pra noite. Mas a melancolia impede de fazermos algo. Um idiota, não sei se sociólogo ou ideólogo, publicou num jornal on-line corrente que o bolsonarismo iria se diluir logo no ano que vem. Diluir onde? Vamos pensar o melhor dos mundos possíveis: Lula ganha, cumpre os quatro anos de mandato. Toda essa massa fanática que já vem se mostrando ao menos desde o Trump, que tem uma desgraçada de uma autonomia quanto às representações oficiais (fake news de zap, 4chan, desgraça-a-quatro), vai simplesmente sucumbir ao estado-burguês-de-direito?

Um desabafo, esta merda não passa de desabafo. Uma tentativa de entender a minha própria melancolia.

A essa altura vocês já devem compreender qual o meu objeto perdido.

A.T.A. é uma colaboradora do Resista!

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