María Choc, criminalizada e condenada

María Magdalena Cuc Choc, uma indígena Q´eqchi´ de El Estor, departamento de Izabal, na Guatemala, acaba de ser condenada a dois anos de prisão pelo crime de usurpação agravada.[i] Na ação penal, que começou em 21 de abril e na qual foi condenada em 27 de junho, ela foi julgada pelos crimes de detenção ilegal, ameaças e usurpação agravada, por atos que Choc garante nunca ter cometido.

Wendy López, do escritório de advocacia para povos indígenas, é a advogada responsável pela defesa de María Choc. Em entrevista por telefone, ela relata que o processo de criminalização teve início em 2017, em fase de investigação, e prosseguiu com a prisão da indígena em 17 de janeiro de 2018. Desde então, somaram-se audiências canceladas sem motivo e privação de liberdade, presa em sua própria casa e sofrendo tortura pela justiça guatemalteca.

Para melhor compreender o caso e os fatos de que é acusada, é preciso retroceder vários anos e analisar o contexto de desapropriação no território Q’eqchi’ que ocupa toda a região do Vale Polochic, nos departamentos de Alta e Baja Verapaz.

María Choc tem 43 anos e é mãe de duas mulheres e dois homens. Sua história familiar está ligada à prisão política de seu irmão Ramiro Choc, ao assassinato de seu cunhado, Adolfo Ich, e ao estupro de 11 mulheres na comunidade de Lote 8. Sua história é a luta contra a desapropriação colonial e patriarcal em seu território, pois o genocídio foi construído e perpetuado nos corpos das mulheres indígenas na Guatemala.

Em 30 de outubro de 2017, mais de 200 pessoas da comunidade Chab’il Ch’och’ foram despejadas violentamente e perderam todos os seus pertences. O cerco e a perseguição à comunidade começaram com a presidência de Otto Pérez Molina (2012-2015), agora na prisão. As vozes comunais têm certificados de bairro onde se assegura serem os primeiros habitantes deste território.

O despejo suscitou indignação e denúncias nacionais e internacionais de organizações de direitos humanos. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) concedeu medidas cautelares para as famílias afetadas. Nesse contexto, María Choc, líder da região, foi intérprete em várias ocasiões em casos de violência de gênero em sua comunidade para mulheres que não falam espanhol. A pedido da comunidade, Choc acompanhou as famílias para apresentar queixa ao Ministério Público pelos despejos. Segundo Choc, nesses processos ela foi apontada e identificada como uma das lideranças de uma quadrilha criminosa, como apontaram o MP e os querelantes.

“A defensora María Magdalena Cuc Choc foi criminalizada por um sistema judicial que favorece empresas extrativistas que roubam as terras das comunidades Q’eqchi na região de Izabal, Guatemala, tudo sob o olhar de um Estado que defende mais os interesses da oligarquia do país e de empresas extrativistas estrangeiras do que o bem-estar de suas comunidades”, afirma a Iniciativa Mesoamericana para Defensores das Mulheres em um comunicado.[ii]

Depoimento de Lucía Ixchiu publicado em Pikara online magazine em 6 de julho de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/07/maria-choc-criminalizada-y-condenada/

Tradução: Luiz Morando.


[i] De acordo com a Wikipédia, “A língua queqchi (Q’eqchi’) é uma língua maia falada na Guatemala, Belize e El Salvador. Na Guatemala, é falada nos departamentos de Alta Verapaz, Petén, Izabal e El Quiché. No Belize, é falada por várias comunidades maias do distrito de Toledo.

[ii] Cf. o texto do comunicado neste link: https://im-defensoras.org/2022/06/alerta-defensoras-guatemala-condenan-a-2-anos-de-carcel-conmutables-a-la-defensora-maya-qeqchi-maria-choc/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s