Ativismo de dados para monitorar e combater os feminicídios

Na Espanha, houve 1.149 mortes por violência de gênero de 1º de janeiro de 2003 – ano em que os crimes sexistas começaram a ser contabilizados – até hoje. É um dos países mais avançados na contagem e diferenciação desses assassinatos. No entanto, esses números não são compilados sob o guarda-chuva da violência baseada em gênero nem são contrastados da mesma maneira na maioria das nações. Por isso, um grupo de pesquisadoras, liderado por Catherine D’Ignazio, diretora do Data + Feminism Lab, do MIT, publicou um artigo na revista Patterns detalhando os esforços de dez organizações dos Estados Unidos, Espanha, Bolívia, Brasil e Porto Rico que trabalham para completar os dados sobre feminicídios no mundo.

“O feminicídio – resultado mais extremo da violência de gênero – é um problema mundial. Em 2017, 87.000 mulheres foram assassinadas no mundo. No entanto, não sabemos quantos desses crimes estão relacionados ao gênero. Precisamos ter acesso a informações sobre quem eram essas mulheres e qual a relação que tinham com o assassino. Esses dados contextuais ausentes são fundamentais para entender a violência contra as mulheres”, afirmam as autoras.

Vazio de dados e falta de visibilidade dos feminicídios

Elas acreditam que esse desconhecimento causa, em parte, a falta de visibilidade do feminicídio. Além disso, indicam que “os assassinatos de mulheres e meninas negras ou indígenas muitas vezes não são cobertos pela mídia porque não são considerados noticiáveis”. E reiteram que “muitos países não mantêm informações exaustivas sobre os assassinatos de mulheres e meninas”. A equipe de pesquisadoras explora o conceito de contradados, informações que compilam incidentes de assassinato relacionados a gênero de várias fontes.

D’Ignazio explica ao SINC que esses contradados “são dados coletados por cidadãos, organizações sociais e ativistas fora das ‘instituições de recontagem’ oficiais. Indivíduos e grupos utilizam cada vez mais a produção desse tipo de informação como estratégia para exigir que o Estado, a mídia ou o público em geral prestem mais atenção ao problema generalizado dos feminicídios. Os ativistas – aponta essa especialista – “produzem dados para contestar a negligência dos governos, bem como para pressionar as instituições a medir de forma diferente o feminicídio e a violência de gênero”.

Por sua vez, Isadora Cruxen, professora de Negócios e Sociedade da Queen Mary University de Londres, diz ao SINC que “a noção de ‘contra’ também adquire um significado adicional no trabalho dos ativistas, na medida em que procuram desafiar as narrativas da mídia que culpam as vítimas da violência de gênero e recuperar, homenagear e lembrar a vida das mulheres assassinadas”.

Helena Suárez Val, pesquisadora do CIM Warwick (Reino Unido) e outra das coautoras, conta ao SINC que este trabalho “fornece um estudo de caso das práticas de dados feministas sobre feminicídio. Nossa análise é muito específica e não afirmamos que os resultados possam ou devam ser generalizados para outras formas de ativismo de dados.”

Trabalho emocional com os dados para documentar a violência

No entanto, acrescenta, “há aspectos da nossa metodologia que podem ser replicados. Por exemplo, o foco no trabalho emocional envolvido em práticas de dados que documentam a violência”. As pesquisadoras reconhecem o enorme peso que essa coleta de informações pode colocar sobre os ativistas que as coletam. “Não é fácil ler dez casos de feminicídio e colocá-los em uma mesa, desmembrá-los, ter que colocar um nome, uma idade, algumas circunstâncias e todo esse detalhe sem que isso afete emocionalmente”, diz uma ativista entrevistada pela equipe da revista.

As autoras consideram como seus campos de pesquisa – o estudo de dados críticos, a ciência de dados e a interação humano-computador – poderiam apoiar e sustentar as práticas dos ativistas de contradados. E assim, elas enfatizam, “ajudar a curar comunidades e responsabilizar o Estado, as corporações e a mídia por seu papel em sustentar a opressão e a violência”.

Sobre o negacionismo da violência de gênero, exercida por movimentos e partidos de extrema-direita, Catherine D’Ignazio ressalta ao SINC que o vê “como parte da reação que ocorre quando o movimento feminista alcança importantes conquistas legislativas ou culturais”.

É “uma forma de tentar reprivatizar a violência de gênero e recolocá-la na esfera privada, em uma questão exclusivamente interpessoal ou doméstica. Essa é uma das razões pelas quais as concepções feministas dessa violência são tão importantes. O feminicídio como conceito afirma diretamente que a violência de gênero é estrutural e não [apenas] interpessoal; está relacionado à subordinação sistêmica de gênero das mulheres; e, portanto, é responsabilidade fundamental dos Estados garantir que os cidadãos tenham o direito de viver uma vida livre de violência”, conclui a especialista.

Artigo da agência de notícias científicas SINC publicado em Pikara online magazine em 6 de julho de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/07/activismo-de-datos-para-vigilar-y-combatir-los-feminicidios/

Tradução: Luiz Morando.

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