Assassinatos, vírus e espancamentos: assim a mídia difunde terror entre as pessoas LGTBI+

O assassino do Grindr, a varíola, as agressões a pessoas trans, o espancamento por gangues que matou Samuel, tiroteios em bares gays e ataques nazistas a espaços LGTBQI+. Nos últimos meses, essas notícias ocuparam manchetes, noticiários e talk shows. Embora todas essas peças exponham os fatos que estão acontecendo, elas também deixam claro que, se não nos comportarmos bem e cruzarmos certas linhas vermelhas, a punição que receberemos é a violência mais grosseira, de insultos à agressão física, um vírus ou a morte. À primeira vista, essas histórias relatam sobre a violência contra gays, lésbicas, bissexuais, trans, não-bináries, pessoas intersexo, queer. No entanto, essas narrativas têm outra função: assustar as pessoas LGTBQI+ para discipliná-las e ensiná-las.

A história de terror LGTBQI+ circula livre e descaradamente pela mídia, e em poucas semanas fomos lembrados daqueles limites que é melhor não ultrapassar: trepar com desconhecidos; trepar com quem e com quantos/quantas/quantes quisermos; conhecer pessoas por aplicativos; ir a determinados espaços; ocupar a rua mas sem nos expressarmos ou nos mostrarmos muito nela; que nossa pinta ou falta de passabilidade é evidente; nossas roupas; fazer algum “ruído”. Em suma, que notem que existimos. O ‘não incomode ou isso é o que vai acontecer com você’ persegue o objetivo claro de controlar as vidas dissidentes da norma para mantê-las sob vigilância e colocá-las de volta no armário. Ou seja, nos tirar as liberdades que temos conquistado nas últimas décadas.

Quem executa a história de terror LGTBQI+? Principalmente o rádio, a televisão e a imprensa digital e de papel. Sem esquecer três outros fatores importantes: as redes sociais, pelas quais se espalha misturada ao discurso de ódio (basta dar uma volta no Twitch, YouTube e Twitter); as diferentes formas de violência já mencionadas; e os políticos e políticas que, com declarações e discursos, negam ou questionam os direitos das pessoas que discordam das normas afetivas, sexuais, de gênero e de expressão.

Essa narrativa de terror sempre foi latente, mas agora adquire maior relevância. Nas últimas décadas, avanços muito importantes foram feitos e, no momento, ainda lutamos para adquirir outros, como a tão esperada lei estatal trans e LGTBI+. Diante desse avanço, os movimentos reacionários estão questionando os consensos sociais para eliminar todas essas conquistas, como já aconteceu com a revogação do direito ao aborto nos Estados Unidos (as jornalistas Noelia Ramírez e Begoña Gómez Urzaiz explicam como o que chamaram de “a grande reação” no podcast Tardeo). Desse terror midiático, a onda reacionária é uma grande beneficiária.

Nerea Barjola, pesquisadora e doutora em Feminismo e Gênero, expôs em seu livro Microfísica sexista del poder como o caso Alcàsser (o assassinato sexualmente violento de Antonia Gómez, Desireé Hernández e Míriam García em 1992) serviu à mídia para construir uma história de horror sexual para disciplinar e corrigir o comportamento das mulheres a partir de então. Barjola estabeleceu um importante precedente de pesquisa e análise que serve para articular o horror LGTBQI+.

Nos últimos dois meses ocorreram dois casos focados na comunidade gay que mostram perfeitamente como funciona essa narrativa do medo: o assassino do Grindr e a varíola. Para fazer a análise e tirar as conclusões, levei em consideração as notícias publicadas em jornais impressos e digitais (El Mundo, La Vanguardia, El Correo, eldiario.es, El País, La Voz de Galicia, 20 Minutos, Diario de Sevilla, ABC, RTVE.es, El Periódico, Onda Cero, Antena 3, El Salto, La Razón, Cadena Ser, CNN, El Español, Telecinco, Clarín e OK Diario), reportagens audiovisuais em noticiários (Telemadrid, RTVE 24H e Telecinco) e os talk shows de televisão (Cuatro al Día, En Jake de la ETB, Espejo Público, La Hora de La 1, La Sexta Clave, Imagen Televisión e La Sexta Noche) tanto no dia em que foram anunciados como posteriormente.

O assassino do Grindr: suas mortes não são tão importantes

No início de maio, a mídia se encheu de manchetes que, sob a aparência inofensiva da informação, visavam um grupo da população e despertavam nele um alarme: “O assassino de gays de Bilbao”, “O assassino de gays”, “O perfil do suspeito serial killer de homossexuais em Bilbao”. Primeira mensagem: “Eles só matam vocês, gays.” O autor das mortes, em prisão preventiva e a quem são atribuídos quatro crimes e duas tentativas de homicídio, ficou com as suas vítimas através de um aplicativo de encontros. Os canais de televisão e digitais logo mostraram e nomearam o aplicativo em questão, Grindr, e também outros como Wapo, deixando assim de ser espaços para homens gays e bissexuais para se tornarem espaços públicos em todo o mundo. Segunda mensagem: “Nem mesmo em seus próprios espaços vocês estão seguros.” Terceira mensagem: “Isso acontece com você por transar com estranhos através de aplicativos”, consequentemente culpando as vítimas e os gays pelo horror que pode acontecer com eles. O “você pediu” de sempre.

A mídia apresentou o criminoso sob um halo de monstruosidade: ele era um “serial killer”, “sádico”, “cruel” e com “comportamento típico de animais”. Essa desumanização transmite a ideia de que esse horror é algo anômalo e excepcional e que não responde à realidade cotidiana que vemos em nossa sociedade. Além disso, a grande maioria das emissoras de televisão, jornais e rádios destacou sua nacionalidade de origem para deixar claro que essa violência não faz parte de “nós, os espanhóis”. Foi usada a xenofobia para apontar que esse tipo de agressão vem de fora.

O perfil que se cria do agressor é fundamental para entender a importância da quarta mensagem enviada à comunidade gay: “Assassinatos não são homofobia”. A hipocrisia da mídia ao narrar essa notícia é relevante. Por um lado, eles enquadram a expressão “o matagays” nas manchetes para chamar a atenção da sociedade, mas, por outro lado, em seus textos e em suas reuniões fazem um exercício complicado para sublinhar que não há homofobia por trás desses crimes. Gritam que existe um assassino de homossexuais e, ao mesmo tempo, rádio, TV, imprensa e sites nos iluminam tentando nos fazer acreditar que o fato de todos os mortos serem gays é algo secundário, menor, casual, irrelevante. Portanto, a quinta mensagem é ativada: “Eles estão atrás de você, homossexual, mas sua morte não é importante.” Por isso, os jornais repetiram que “ainda não se sabe se há motivo para o ódio aos homossexuais”, e até o noticiário passou a usar vozes de autoridade como um criminologista para anular a homofobia dos assassinatos: “Ele é um ladrão que queria roubar dinheiro e que para isso administrava drogas.”

A construção dos assassinatos como algo inusitado e a insistência de que não são fruto da homofobia respondem a um objetivo claro: dissociar o sistema heteropatriarcal da violência exercida contra pessoas LGTBQI+. Para lavar as mãos e para que ninguém perceba sua responsabilidade nesses crimes e agressões, a mídia baseia sua história na morbidez, assim como fizeram com Alcàsser. Por esse motivo, temos inúmeras reportagens e peças de vídeo expondo com riqueza de detalhes o modus operandi do assassino, e até entrevistando seus amigos e familiares, mas não há um artigo ou menção em nenhuma notícia sobre os motivos da violência homofóbica.

Varíola [dos macacos]: isso é transmitido por trepar

A estigmatização da comunidade gay pela mídia com a varíola [dos macacos] foi tão dura e implacável que até a própria ONU teve que intervir para detê-los e lembrá-los que a orientação sexual não é um fator que influencia a transmissão do vírus. Lemos e vimos como a homossexualidade estava ligada a essa infecção e, quando chegaram as retificações, a primeira mensagem já havia sido dada: “Esse vírus afeta você porque você é bicha”. Eles fizeram a mesma coisa que fizeram com o HIV nos anos 80. Além disso, La Razón ousou publicar um artigo intitulado ‘O perigoso paralelismo entre varíola e AIDS’ sem qualquer ética e responsabilidade jornalísticas.

Os homens homossexuais foram apontados como os causadores da transmissão do vírus e, novamente, vozes de autoridade, neste caso políticos, perpetuaram essa ideia. O conselheiro da Saúde da Comunidade de Madri, Enrique Ruiz, uma vez que uma sauna gay já tinha sido identificada como fonte de infecção, decidiu que “o perfil dos infectados são todos homens e seria preocupante se aparecesse uma mulher” e que em diferentes países o padrão “é o mesmo”. Enquanto isso, o Vox relacionava a varíola a homossexuais “drogados”. O tratamento teria sido diferente se o primeiro surto tivesse sido entre pessoas heterossexuais?

Para noticiar a varíola, a mídia retratou a cara do vício: apresentou simultaneamente os dados mais recentes com imagens da sauna gay fechada, homens musculosos dançando em trajes de banho e festas com bandeiras de arco-íris na tela. Espaços gays foram atacados para lançar uma segunda mensagem subliminar, “você está sujo”, enquanto nosso desejo sexual foi controlado para proclamar o aviso final: “A culpa é sua por trepar como você trepa, é um castigo por como você vive o sexo, vocês são promíscuos e viciosos” – a chamada “ação vergonhosa” explicada pela jornalista Noemí López Trujillo em Newtral. O objetivo dessa estratégia é duplo. Por um lado, incutir medo ao fazer sexo, a mesma técnica disciplinar que a mídia utilizou com o HIV e AIDS; por outro, mais uma vez responsabilizar a vítima, neste caso, homens homossexuais, por um vírus.

O terror queer também foi incutido por meio de fotografias que mostravam as pústulas e feridas que a varíola causa na pele. Esse alarme do que poderia acontecer com você foi ampliado com depoimentos que relatavam todos os sintomas sofridos. O mórbido novamente para o ato de presença. Algumas dessas imagens que os jornais mostravam eram de corpos de negros e menores, implantando no subconsciente a narrativa racista de que, além dos homossexuais, aquilo era “algo da África”. O perigo, como no assassino do Grindr, vem de fora.

Espancamentos e ataques nazistas: vamos por você

Além desses dois casos, em maior ou menor escala e dependendo de como é tratado, cada notícia relacionada a alguma agressão LGTBIfóbica transmite suas mensagens cheias de terror. O assassinato coletivo de Samuel Luiz gritando “bicha” em julho de 2021 projetou toda a comunidade LGTBQI+ com a ideia de que “pode acontecer com qualquer um de nós”; daí, um dos slogans de protesto mais ouvidos é “Somos todos Sam”. Essa identificação e simbiose com o jovem de 24 anos serve como um alerta direto: podemos acabar como ele se o agressor ou agressores considerarem que levantamos demais a voz, que somos vistos demais ou que nossa existência os incomoda.

Parte das agressões físicas chega à mídia graças às denúncias feitas pelas vítimas nas redes sociais, e isso tem um efeito duplo: por um lado, são muito úteis para denunciar e mostrar a violência mundial, mas, por outro, serve como um lembrete do que pode acontecer conosco um dia. O mesmo acontece com as manchetes ou peças de televisão que, apesar de não mostrarem o resultado dos espancamentos, anunciam um “espancamento brutal” de duas garotas trans em Valência, um rapaz trans em Toledo, uma jovem trans em Barcelona, ​​uma mulher trans em Hospitalet ou o ataque “com um tijolo” a um casal de lésbicas que se beijavam na Cidade do México.

Há momentos em que esses ataques não são contra nossos corpos, mas contra nossos símbolos, como o recente ataque a uma exposição do Orgulho LGBT em Valência. Há outros momentos em que esses ataques têm o resultado final de acabar com nossas vidas: como o tiroteio de um homem em um clube gay em Oslo ou o ataque que um grupo de 31 neonazistas queria perpetuar nas celebrações do Orgulho em uma cidade de Idaho. Mais uma vez, uma mensagem clara é emitida: “Nós vamos por você”.

Limites cruzados

O que a história da mídia do terror LGTBI+ persegue? Ensinar, dominar, corrigir, disciplinar e controlar nossos corpos. Se, como resultado de todo esse bombardeio comunicativo, alguém considerar que é melhor não se arriscar, não chamar a atenção na rua, não dar pinta, não se beijar em público, não colocar aquele top, não falar alto na frente de certas pessoas, não pisar em certos espaços, pensar duas vezes antes de trepar ou criar uma conta em uma rede social, então nesse exato momento a história da mídia de terror queer terá o efeito esperado: reprimir nossas vidas e as liberdades que conseguimos. A mensagem que fica no resíduo desses ataques nos diz que nada nos acontecerá se formos bons, se ficarmos quietos em um canto, se formos assimilados pela cisheteronorma, se passarmos despercebidos. O terror LGTBIQ+ busca nosso apagamento.

Como sempre, e como vem sendo habitual na história de todas as dissidências, está em nossas mãos não nos deixarmos dominar por esses mecanismos corretivos. Nós carregamos uma mochila atrás de nós e sabemos o que é ter sido pisoteadas, silenciadas e torturadas. Custou-nos chegar a este ponto em que a nossa existência é cada vez mais habitável e temos claro que não vamos voltar para o armário, nem nos escondermos. Após o tiroteio em Oslo, os organizadores do Orgulho decidiram cancelar a marcha e todos os eventos relacionados a ela. No entanto, vizinhos e vizinhas de todas as idades responderam ao medo e às ameaças indo às ruas. Temos mais poder do que pensamos. O terror e o reacionarismo não vão tirar nossas vidas.

Artigo de Rubén Serrano publicado em Pikara online magazine em 20 de julho de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/07/asesinatos-virus-y-palizas-asi-difunden-los-medios-terror-en-las-personas-lgtbi/

Tradução: Luiz Morando.

O assassino do Grindr, a varíola, a morte de Samuel e os espancamentos de pessoas trans foram manchetes nos últimos meses na Espanha. Sob uma aparente função informativa, a mídia publica mensagens na cobertura dessa violência que buscam disciplinar e doutrinar as vidas LGTBQI+. Do "você buscou isso" ao "se você não chamar a atenção, ninguém vai bater em você na rua", o agressor se justifica enquanto a culpa sempre recai sobre as vítimas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s