Voltemos aos arquivos!

A partir do ativismo e da pesquisa em estudos trans, costumamos identificar a década de 2010 com o surgimento e a intensa visibilidade midiática da infância trans. Desde então, vimos associações de famílias de crianças trans florescerem e se multiplicarem globalmente. Essas associações familiares insistem em chamar essa infância de “menores”, apesar de ser um conjunto múltiplo de seres – meninas, meninos, menines e jovens – plurais e rebeldes. Esse rótulo esquece que o termo “menores” costuma ser reservado para quem “tem problemas”, e denota sua relação com as instituições sociais, algo que torna problemática sua própria existência.

Nesse curto espaço de tempo, tivemos a sensação de presenciar o surgimento de um novo sujeito político, fruto de uma mudança sociológica que tem a ver com a evolução da própria infância em uma parte do mundo ocidental que tem algum acesso a direitos do que poderíamos chamar de cidadania sexual. Poder ver e compreender crianças trans surge da própria novidade de ouvir as crianças, ao invés de reprimi-las e tentar modificar seu comportamento para cumprir as normas hegemônicas sobre identidade sexual e de gênero. Essa infância, que cresce em contextos políticos com alguns direitos sexuais – insisto –, é representada por familiares que muitas vezes foram pessoas sem histórico ativista anterior em movimentos sociais, e que produzem uma sub-rogação de sua voz infantil. Algumas famílias, por outro lado, têm conseguido promover grandes debates, assim como mudanças sociais e legislativas.

Temos afirmado com frequência que esta é “a primeira geração de crianças trans que podem viver com aceitação social”, livre da repressão e da imposição de terapias de reconversão, leis repressivas e controle social agressivo. Elas têm a tecnologia legal, social e médica para fazer transições, ter corpos e experiências mais próximos do reconhecimento que desejam. Mais livres das marcas e corporalidades que poderiam traí-las como transexuais. Jovens que podem atrasar a puberdade, que experimentam decisões sobre seus corpos e identidades precocemente, que crescem encarnando sua identidade escolhida. E que, por outro lado, têm experiências muito diferentes das pessoas trans mais velhas, que vivemos processos de transição muito diversos em contextos muito hostis, como a ditadura de Franco e seu legado com o início da democracia. De fato, já se fala da fratura entre gerações e de como essa infância busca seus próprios referentes para sobreviver a esse pretenso contexto de fartura e apoio social que, no entanto, as expõe a terríveis inimigos, como a aliança entre a extrema-direita e o feminismo antitrans, e a visão patologizante de suas vivências que inunda as principais instituições de acolhimento de crianças.

Partindo dessas lógicas, que se baseiam em nossas experiências vividas, ler Historias de la infancia trans é um choque e uma ruptura importante. Digo ruptura porque desbarata boa parte de nossos argumentos, pois nos questiona justamente que a infância trans atual é um fenômeno puramente contemporâneo, novo e típico do momento presente.

Para sustentar essa afirmação, Jules Gill-Peterson nos leva a uma viagem pela história da medicina americana (e em parte, com sua relação com a medicina europeia), entrando nos arquivos e práticas médicas de importantes hospitais. Essa jornada o leva a revelar as estruturas a partir das quais a medicina constrói o comportamento desviante de algumas pessoas. Jules Gill-Peterson tem acesso às cartas que esses médicos receberam, escritas por crianças e jovens que não cumpriam física ou socialmente, ou de qualquer outra forma, as normas sociais sobre sexo e gênero da época. Ele encontra no arquivo vestígios de vidas que poderíamos reconhecer como trans desde o início do século XX, e às vezes antes. Traços que estiveram lá todo esse tempo, mas que não soubemos buscar ou reconhecer como um legado trans.

Nessa imersão no arquivo médico, Jules Gill-Peterson estuda os processos entrelaçados de medicalização e racialização da infância. E são precisamente os vestígios deste arquivo que levam ao estudo da relação entre a infância trans e intersexo ao longo do século XX nos referidos paradigmas médicos, encontrando conceitos-chave como a plasticidade do desenvolvimento, mas também o conceito de género. Uma infância cujo estudo tem sido fundamental, não só para a história das pessoas trans e intersexo, mas também sobre como raça, sexo e gênero foram pensados.

Jules Gill-Peterson parte de uma perspectiva muito aberta sobre o que é uma vida trans, encontrando no arquivo uma urdidura de conceitos de outra época, como hermafroditismo, intersexualidade, travestismo, inversão, homossexualidade, transexualidade e identidade transexual. E inclui todas as crianças menores de idade, às vezes abrangendo experiências até 18 ou 21 anos de idade.

Seus achados também refutam a historiografia mais aceita, não apenas sobre o impacto da medicina ao cunhar o conceito transexual, mas também questionam o surgimento inédito da infância trans hoje, mostrando sua existência ao longo de todo o século XX, e também alude à sequência de direitos de gays e lésbicas versus direitos de trans, como se todas as pessoas LGBTQI+ tivessem tido a mesma experiência de lutar com o paradigma médico ou legal, ou que isso acontecesse em um momento histórico semelhante. Ele também problematiza a centralidade da mulher masculina como referência para os homens trans, mostrando um legado bastante desconhecido dos homens trans. E, com essas informações, ela nos convida a repensar as supostas “guerras de fronteira” entre a masculinidade feminina e as experiências dos homens trans.

Além de romper com esse modo de pensar a história sexual e nos sugerir implicitamente a questão do que sabemos sobre nosso próprio arquivo da sexualidade nas geografias autóctones, o autor também nos questiona sobre o projeto racial da medicina. Historias de la infancia trans é um trabalho particularmente hábil em mostrar continuidades raciais no estudo médico de pessoas trans e intersexo. O professor Gill-Peterson argumenta que o interesse médico pela plasticidade durante o desenvolvimento evolutivo da infância também foi um compromisso com o estudo da plasticidade racial, de modo que a medicalização e o monitoramento do sexo das criaturas também foi um projeto sobre raça. Não é, talvez, uma ideia nova, mas sua principal contribuição é o uso do arquivo médico para sustentar essa hipótese, um arquivo que mostra histórias de criaturas que chama de “trans”, antes de a própria palavra transexualidade existir.

O certo é que Jules Gill-Peterson penetra em um arquivo, muitas vezes difícil e ilegível, para resgatar o trans de uma pluralidade de experiências não necessariamente medicalizadas, que nem sempre foram consideradas trans, o que significa enfrentar o anacronismo do uso desse fim em outros momentos, como a primeira metade do século XX. Ele traça e analisa o uso do conceito de plasticidade no desenvolvimento das crianças, mostrando um contexto social onde prevalecia uma noção hierárquica e racista de evolução. Esta é uma visão reveladora de sua análise, porque crianças americanas brancas foram consideradas sujeitos ideais para a experimentação médica, ajudando a provar que a ordem social pode ser restaurada quando a natureza falha. Algumas vidas que eram importantes e que precisavam ser analisadas e compreendidas. A plasticidade, portanto, seria uma ferramenta que a medicina poderia usar para reconstruir e moldar crianças intersexo. No entanto, crianças pretas e pardas não pareciam ter a mesma plasticidade de desenvolvimento e foram rejeitadas, resultando em maior institucionalização, perseguição e internação em prisões e outras instituições, com consequências que ainda hoje são visíveis nos Estados Unidos.

Uma parte desse legado histórico, que me parece fundamental, é que ele aborda o agenciamento de criaturas trans, que por vezes desafiaram o diagnóstico médico desde muito cedo, buscaram ajuda na medicina usando lógicas e argumentos que encontraram nos escritos dos referidos médicos para seus propósitos, e compartilharam os endereços dos médicos dispostos a oferecer apoio etc. O arquivo mostra que havia pessoas trans que eram especialistas leigos, que coproduziram conhecimento sobre vidas trans, que financiaram pesquisas, e alguns deles até se tornaram médicos que cuidaram de pessoas trans com um cuidado e rigor novos para a história da medicina.

Com seu trabalho, Jules Gill-Peterson nos convida a repensar o valor do arquivo, como concebemos as vidas trans e intersexo muitas vezes sem uma análise racial do papel da medicina e desprovidos de um olhar profundamente interseccional. A partir desse outro lugar, podemos questionar criticamente nossa identidade e nossas experiências, com um legado e ancoragem muito diferentes. Poder imaginar que a infância trans existiu e viveu, apesar de não haver palavras para se descrever em termos médicos uma infância que nos precede, mesmo que não saibamos. Saber que os homens trans não surgiram de forma inédita na década de 1990, como muitas vezes se afirma. Com uma aliança histórica com pessoas intersexo.

Por fim, gostaria de sugerir uma recomendação. Se você gostou do livro de C. Riley Snorton, Negra por los cuatro costados (Black on all four sides) (Bellaterra, 2019), vai adorar Historias de la infancia trans, ambos livros habilmente traduzidos por Javier Sáez. E vice-versa. São livros que falam entre si e ajudam a entender, a partir do trabalho de arquivo, quais são as inter-relações de sexo e gênero com raça.

Prólogo que Lucas R. Platero escreveu para o livro Historias de la infancia trans de Jules Gill-Peterson. Disponível em: https://paroledequeer.blogspot.com/2022/07/volvamos-al-archivo-prologo-de-lucas-platero.html#more

Tradução: Luiz Morando.

Prólogo que Lucas R. Platero escreveu para o livro Historias de la infancia trans de Jules Gill-Peterson.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s