Construir memória para lutar contra as violências sexistas

As violências sexistas são provavelmente a violação de direitos humanos mais difundida, pois é a que a maioria das pessoas enfrenta e, ao mesmo tempo, uma das mais normalizadas pelas sociedades ao redor do mundo. Houve avanços na percepção social a esse respeito; no entanto, ainda há um longo caminho a percorrer.

Não queremos esquecer a responsabilidade coletiva que temos de erradicar essa violência; por um lado, devemos exigir que as instituições públicas promovam a legislação (especificada em recursos), e que implementem medidas efetivas de cuidado e prevenção. E por outro, como cidadãos, devemos refletir sobre o papel e a capacidade de ação que temos diante desse problema.

Na ONG Mugarik Gabe [https://www.mugarikgabe.org/es/], nos últimos anos, optamos por destacar a importância da memória como estratégia de combate às violências sexistas. Trabalhamos para construir uma memória a partir de uma análise feminista que torne visíveis as causas estruturais. No nosso caso, fizemos isso incorporando os depoimentos de mulheres vítimas e sobreviventes de violências sexistas e colocando-as em um lugar central, para que sejam ouvidas e acreditadas. Uma memória que incorpore suas experiências, demandas e propostas.

Abordar a erradicação das violências sexistas da memória é reconhecer que as violências sexistas existem. Não é querer normalizá-las. É apontar para outro tipo de sociedade mais justa onde se quer quebrar as desigualdades estruturais. É coletar coletivamente os fatos que ocorreram para que não aconteçam novamente. É apontar para a justiça, a verdade e a reparação.

A memória social: reler o passado para construir o futuro

A memória social é o discurso que a sociedade faz de si mesma, ou seja, o que contamos e lembramos sobre o que aconteceu, o que molda e explica nossa identidade e constrói um imaginário social. Na construção da memória social, como na construção de todo tipo de narrativa, quem detém o poder deixa à margem os coletivos ou grupos com menor poder, sem serem ouvidos e, portanto, sem oportunidade de escrever história, muito menos a possibilidade de fazê-la permanecer na memória coletiva.

Reler o passado a partir de uma análise feminista de justiça e responsabilidade social e incorporar as histórias de vítimas e sobreviventes de violências sexistas, a partir de uma perspectiva não vitimizadora, nos ajudará a ressignificar as violências sexistas no presente e transformar o imaginário social. Temos que ser capazes de incorporar na história as histórias de vida, dor e resistência das mulheres como exercício político de reparação e propostas de não repetição.

Os relatos: algo mais do que contar uma história, serem escutadas e acreditadas

O silêncio a que as vítimas são conduzidas em muitos casos, bem como a invisibilidade dos fatos que enfrentaram, têm impactos nas diferentes esferas de suas vidas (física, psicológica, social, econômica, jurídica…). Dessa forma, o não reconhecimento acaba sendo mais uma violência que se exerce socialmente contra as mulheres vítimas e sobreviventes, reforçando a estigmatização e culpabilização daquelas que o enfrentam. Tudo isso reproduz a naturalização das violências sexistas em nossas vidas.

A partir das experiências anteriores em que mulheres sobreviventes nos contaram suas histórias, aprendemos o quão importante era coletar testemunhos em primeira pessoa para uma abordagem real e corporificada das violências sexistas que nos permite nos sentirmos identificadas e ligadas por empatia com quem relata suas vivências.

Os testemunhos são fundamentais tanto para quem ouve como para as mulheres que o contam. O testemunho pode ser curativo quando contado e expresso em um ambiente que confere credibilidade e reconhecimento à sua história, valorizando suas estratégias de enfrentamento e considerando-as como protagonistas ativas de sua realidade.

Organizações feministas de todo o mundo, como Actoras de Cambio, da Guatemala, e Ruta Pacifica de las Mujeres, da Colômbia, entre outras, nos ensinaram com suas experiências que quebrar o silêncio e dar credibilidade aos testemunhos das mulheres são atos políticos de justiça e reparação.

Temos que trilhar o caminho para uma memória coletiva que ouça os testemunhos individuais e coletivos de mulheres vítimas e sobreviventes de violências sexistas e coletivize sua dor reconhecendo os fatos. Conforme afirmado no processo de construção da reportagem “A verdade das mulheres”, “a memória, em sua dimensão coletiva, faz da narrativa uma ponte entre uma experiência íntima de dor e um dano coletivo que deve ser reconhecido em uma nova memória compartilhada”.

Construir memória para avançar no direito à reparação

Com María Naredo, entendemos que o direito à reparação para mulheres vítimas e sobreviventes de violências sexistas é um direito fundamental a reivindicar e garantir, não apenas na indenização, mas também na restituição, satisfação e, claro, nas garantias de não repetição.

A indenização refere-se à compensação econômica pelos danos sofridos, restituição e reabilitação, o que significa devolver a vítima à situação anterior à agressão sofrida, bem como medidas para garantir sua completa recuperação de todos os impactos (físicos, psicológicos, sociais…) que atos têm provocado. A satisfação é o elemento que inclui tudo o que diz respeito à divulgação da verdade, dando legitimidade e credibilidade às próprias vítimas, aos seus depoimentos e que sejam reconhecidas na esfera pública e social. O elemento de garantias de não repetição expõe que o Estado deve garantir que a agressão não se repita.

Recolher e divulgar testemunhos de mulheres vítimas e sobreviventes na memória social contribui para a reparação na medida em que reconhece os fatos narrados, recolhe-os na sua história dando-lhes valor e credibilidade e reconhecendo-as publicamente. Incorporá-lo à memória significa poder construir discursos que rejeitem os atos violentos, nos posicionemos diante deles, enfim, expressem que eles não deveriam ter acontecido e que devemos abordar as mudanças necessárias para que não se repitam, nem com elas nem com qualquer outra mulher.

Nosso grão de areia: um espaço virtual de memória simbólica

Iniciamos o trabalho sobre memória na Mugarik Gabe através de uma pesquisa com abordagem feminista na qual coletamos histórias de vida de mulheres corajosas que nos contaram sobre a violência a que foram submetidas e como a enfrentaram. Queríamos que as suas histórias ficassem inscritas na memória social, que desafiassem o público, e para isso ocupamos a rua com seus testemunhos através de uma iniciativa artística que emociona. Com o objetivo de contribuir para a construção dessa memória social coletiva, reunimos diferentes iniciativas de memória de mulheres vítimas e sobreviventes em um espaço virtual, que visa se firmar como espaço de memória dessas mulheres. Nossa contribuição é coletar experiências e boas práticas para dar visibilidade e conforto a todas aquelas mulheres e grupos que trabalham para que isso não seja esquecido, para que seja conhecido e reconhecido, para que isso não volte a acontecer e para que esses aprendizados e experiências impulsionem a transformação da sociedade.

Uma das experiências que coletamos nesse espaço virtual é a exposição “Ser mujeres en la ESMA, testimonios para volver a mirar”, que mostra especificamente a violência que exerceram contra as mulheres por serem mulheres, tornando visível a violência sistemática exercida contra elas. Essa exposição foi realizada na Escuela de Mecánica Armada (ESMA), um antigo centro clandestino de detenção, tortura e extermínio durante a ditadura argentina, hoje convertida em Museu da Memória. A iniciativa recolhe os depoimentos de mulheres sobre a violência vivenciada, que em muitos casos foi silenciada, e destaca iniciativas de cuidado individual e coletivo e formas de violação das normas.

O documentário Volar, dirigido por Bertha Gaztelumendi e produzido por Emakunde, é outra das iniciativas coletadas na web. Nove mulheres que enfrentaram violências sexistas passam um final de semana no campo, onde compartilham o que vivenciaram e como o enfrentaram. São mulheres de diversas origens, profissões, locais de residência… rompendo assim com os clichês e estereótipos das vítimas. Suas protagonistas declaram publicamente que foram vítimas de violência de gênero, querendo também romper com o estigma social.

Estas são apenas duas das muitas iniciativas que estão recolhidas na web e esperamos que, juntos, possamos completá-las para fazer deste espaço um lugar de memória e avançar na reparação.

Artigo produzido pela ONG Mugarik Gabe publicado em Pikara online magazine em 16 de dezembro de 2021. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/12/construir-memoria-para-luchar-contra-las-violencias-machistas/

Tradução: Luiz Morando.

Inscrever mulheres vítimas e sobreviventes na memória social coletiva é um ato curativo, de reparação social e um compromisso político com a prevenção das violências sexistas.

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