Resistência feminista russa, a outra guerra de Putin

A primeira notícia que tive de que havia um movimento feminista na Rússia foi há uma década, quando foi noticiado na mídia que um grupo punk de mulheres em balaclavas coloridas havia ocupado o altar da Catedral de Cristo Salvador em Moscou para cantar: dançar e implorar à Virgem Maria para se tornar feminista e livrá-los de Vladimir Putin. Elas eram as Pussy Riot. Esses 40 segundos de performance de guerrilha lhes renderam uma sentença de dois anos em um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Poderia ter sido sete, que é o que o promotor pediu, mas a pressão internacional e o trabalho de organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, evitaram a pena máxima e conseguiram sua libertação alguns meses antes do fim. As humilhações e torturas sofridas por uma das duas integrantes condenadas (Nadia) se refletem em parte no curta-metragem The Penal Colony, que pode ser visto no canal das Pussy Riot no YouTube, e no livro que ela escreveu, Um guia Pussy Riot para o ativismo [publicado no Brasil pela Editora Ubu]. Mas é o documentário Pussy Riot: a punk prayer que conta a história daquela “oração” que expôs o autoritarismo do regime de Putin e que este não seria nada sem o trabalho “espiritual” da ultraconservadora Igreja Ortodoxa.

Feministas contra a guerra

As ativistas feministas russas foram as primeiras a se mobilizar e promover protestos contra a guerra de Putin na Ucrânia. De acordo com Ella Rossman, pesquisadora de gênero e parte da Resistência Feminista contra a Guerra, existem mais de 45 grupos feministas de base em toda a Rússia e eles colaboram entre si há muito tempo. Esta é a razão pela qual as feministas se mobilizaram tão rapidamente assim que a invasão começou. Sua agilidade de auto-organização não era nova. A compreensão da agência e do poder feminino vinha de há mais tempo e com isso teve muito a ver o significado do ativismo das Pussy Riot para milhares de mulheres, dissidentes, artistas, professoras, jornalistas, intelectuais, estudantes, defensoras de direitos humanos, membros da sociedade civil…

O movimento feminista russo está intimamente ligado à comunidade LGBT russa e às organizações de direitos humanos. Eles lutam há anos contra o regime de Putin e tecem redes de ajuda e apoio mútuo que sustentam, inspiram, resistem e protestam apesar da dura perseguição. Precisamente, poucos dias antes da invasão da Ucrânia, para o Dia dos Namorados, mulheres ativistas russas organizaram (em Moscou e São Petersburgo) uma “corrente humana de solidariedade e amor” a outras mulheres, vítimas da repressão política e policial por apoiarem o líder oposicionista preso Alexei Navalny. Essa ação pacífica de apoio também deu origem a novas ameaças e prisões. A liberdade de expressão, manifestação e reunião é outra das guerras que Vladimir Putin travou em seu próprio país desde que chegou ao poder quando ela é usada para defender os direitos humanos.

Rapidez, clareza, harmonia e coragem

“O feminismo como força política não pode estar do lado de uma guerra de agressão e ocupação militar”, proclamava o manifesto que deu origem ao movimento feminista russo contra a guerra (daqui em diante, Resistência Feminista contra a Guerra) poucos dias antes de seu início. Já foi traduzido para 30 idiomas e serviu de guia para outros manifestos pacifistas que foram replicados em outros países. As próprias Pussy Riot conseguiram angariar, nas primeiras semanas da guerra, mais de seis milhões de euros em criptomoedas para serem utilizados na assistência médica aos cidadãos da Ucrânia.

Hoje, a Resistência Feminista contra a Guerra já conquistou – em meio à mais férrea censura – a atenção de mais de 40 mil pessoas em seus canais. Por meio deles, são divulgadas e oferecidas informações sobre convocações, imagens e ideias de protestos, depoimentos vindos da Ucrânia, instruções detalhadas sobre segurança cibernética, documentos de autodefesa, apoio legal aos detidos nos protestos e ajuda psicológica após as prisões, conselhos sobre como falar com entes queridos que negam a guerra na Ucrânia… No balanço que fizeram há alguns dias, eles relatam que já realizaram mais de 5.000 ações na Rússia, apesar do assédio policial e das prisões, que chegam a mais de 15.000 desde 24 de fevereiro. Longe de se ver intimidada, a Resistência Feminista Russa está se tornando mais organizada e pragmática, redobrando sua criatividade, coragem e impacto.

Microações, ajuda e engenhosidade

“O protesto é um amplo espectro em que diferentes grupos de pessoas devem assumir diferentes áreas de trabalho. Alguém é responsável pela informação, alguém pela sabotagem, alguém pelas greves, alguém faz ações de rua, alguém faz ações mais radicais…”, diz um dos documentos que circulam nos canais de comunicação da Resistência Feminista contra a Guerra e que faz parte dos planos semanais de protesto que são compartilhados. Em seu objetivo, diante da censura para que se conheça a verdade sobre a guerra, multiplicam-se as ações e microações que são denunciadas por meio de um bot do Telegram para canalizar sua disseminação massiva para serem replicadas e gerar outras ações como mensagens de “não à guerra” escritas nas notas e moedas que circulam de mão em mão ou microações como conversar com um familiar e compartilhar imagens e histórias que vêm da Ucrânia. Elas estão constantemente criando novos formatos de propaganda viral de protesto contra a guerra e apoio ao povo ucraniano.

A adaptação às necessidades que surgem é contínua. Além da assistência jurídica e psicológica aos detentos, a Resistência Feminista começou recentemente a oferecer conselhos de advogados e especialistas de organizações russas de direitos humanos para ajudar os cidadãos que se recusam a ir à guerra para que possam exercer seu direito constitucional à objeção de consciência ao serviço militar (um direito consagrado no artigo 59 da Constituição russa). Familiares de desaparecidos no campo de batalha e desertores também estão recebendo apoio, especialmente mães, para que possam localizá-los, e até criaram um fundo de ajuda econômica para aqueles que estão perdendo seus empregos devido à guerra porque fecharam sua empresa ou por ter expressado suas opiniões políticas.

Mulheres de negro

Uma das ações mais visíveis é a que elas vêm realizando às sextas-feiras há duas semanas. Em muitas cidades russas, como protesto e luto, mulheres vestidas de preto andam pelas ruas com rosas brancas nas mãos em referência à ação antifascista dos estudantes alemães durante a Segunda Guerra Mundial. O espaço público é muito importante para o que elas chamam de “ações públicas de luto”. Essas ações às vezes atingem seu fim e outras são dissolvidas pela polícia. Em 18 de março, a ativista Anna Loginova foi presa em uma delas, enquanto atravessava a cidade de Ecaterimburgo com outras companheiras vestidas de preto e segurando flores brancas nas mãos. O tribunal decretou nove dias de prisão para a ativista.

Essas ações também começam a ser replicadas em outras cidades europeias como Paris, onde em 24 de março um grupo de feministas organizou uma ação de luto em frente ao prédio do Centro Espiritual e Cultural Russo em Paris.

Perseguição aos protestos

Pelo menos 100 ativistas sofreram buscas, prisões, torturas e multas, segundo estimativas da Resistência Feminista contra a Guerra. A pressão está crescendo, e as autoridades não só atemorizam quem participa dos protestos, mas também suas famílias, amigos, colegas e colegas de trabalho… “Eles querem aterrorizar. Eles querem que todos acreditem que ter uma opinião e se manifestar é perigoso. O que levará à punição”, disse Lölja Nordic, uma das ativistas feministas envolvidas na Resistência. Há informação documentada da existência de ataques às casas de ativistas russos por neonazistas e grupos organizados, com base nas listas elaboradas pelas forças de segurança. O próprio Putin, em discurso televisionado pedindo “purificação” da Rússia de “escória e traidores”, encorajou o expurgo de dissidentes.

Estrume, insultos, cabeças de porco, pichações… são algumas das ameaças sofridas por aqueles que se opõem à guerra e que encontram às portas das suas próprias casas. Entre as ativistas que sofrem essas ameaças estão Olga Misik e a poeta e artista Daria Serenko. A primeira ficou conhecida há dois anos por, aos 17 anos, sentar-se em frente a um grupo da tropa de choque, durante protestos contra Putin, para ler a Constituição russa, que consagra o direito à manifestação pacífica. A segunda é conhecida por ser a criadora do “protesto silencioso”, tão usado nos dias de hoje na Rússia. Em 2016, ele concebeu essa fórmula pensando naqueles que não podiam arriscar se expressar de outra forma dado o grau de repressão existente.

Repressão, perseguição, tortura, ameaças, prisões e até assassinatos não são algo novo para ativistas e feministas na Rússia. Daí a necessidade e importância de valorizar uma resistência que, embora desconhecida para nós, é de enorme importância nestes tempos, em que os cachorrinhos de Putin na Europa, como a extrema-direita do Vox [na Espanha], ganham cada vez mais força nas urnas e espaço na esfera política. Inspire sua resiliência e também sua coragem com essas feministas. Mais precisamente, Masha, uma das duas integrantes das Pussy Riot que está na prisão há semanas depois de protestar contra a guerra em sua conta no Instagram e que foi presa muitas vezes ao longo dos anos, disse, da prisão, em uma de suas mensagens mais recentes no Twitter: “Não tenha medo e não se cale”, porque qualquer ato, por mais insignificante que pareça, pode ter um valor imenso. É disso que se trata a Resistência feminista russa: Davi contra Golias.

Artigo de Violeta Assiego publicado em Pikara online magazine em 6 de abril de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/04/resistencia-feminista-rusa-la-otra-guerra-de-putin/

Tradução: Luiz Morando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s