“Interessam-me as alianças que não são geradas por identidade, mas por projetos de transformação social”

Paul B. Preciado, filósofo queer de renome internacional, lembra com humor que nasceu em Burgos, “nas profundezas do fascismo”. Neto de descendentes árabes, em sua família era frequentemente mencionada a lenda da Freira Alférez, aquela que escapou do convento com roupas de homem e participou da colonização de Abya Yala. “Quando você recebe o gênero feminino no nascimento e tem outra identificação, como é o meu caso, de alguma forma você sabe que aquela viagem inusitada que Erauso fez tem a ver com sua própria vida”, explica.

O autor do Manifesto contrassexual, Testo junquie e Um apartamento em Urano tinha esquecido completamente Catalina/Antonio, até receber a proposta dos artistas Cabello/Carceller para fazer a curadoria de uma exposição em Azkuna Zentroa (Bilbau) que oferece uma perspectiva contemporânea dessa figura histórica: “Una voz para Erauso. Epílogo para un tiempo trans”. Helena Cabello e Ana Carceller formam um coletivo que faz arte queer desde 1992, antes de Judith Butler ser traduzida para o espanhol. Elas já haviam abordado outras figuras históricas espanholas em suas obras, como Eleno de Céspedes e Agustina González, la Zapatera. Preciado valoriza esse exercício de encontrar narrativas de transgressão de gênero na história local, pois acredita que a dependência de genealogias norte-americanas de dissidência sexual é uma das razões pelas quais o queer é tachado de neoliberal e pós-moderno.

Ter Preciado como curador garante a atenção da mídia, mas ele impõe suas condições à imprensa: nada de fotos, muito menos para as redes sociais, e pede que as entrevistas se concentrem na exposição. No entanto, o entusiasmo com que ele fala sobre as contradições de Erauso e a abordagem contemporânea da exposição permitem abordar debates atuais como as infâncias trans ou a ascensão do feminismo transexcludente.

Há certa discussão sobre considerar Erauso uma referência feminista, lésbica ou trans. Essa luta faz sentido?

Erauso era tudo isso e nada disso ao mesmo tempo. Não há história fechada, mas sua história vai ser interpretada de diferentes maneiras. Agora pensamos em identidades sexuais e de gênero de forma segmentada. Obviamente, sua fuga do convento pode ser entendida como um processo de emancipação de gênero. Quanto à lesbianidade, é curioso, pois nas biografias ela é apresentada como uma espécie de Don Juan, mas não se casou nem conheceu mulheres específicas. Falar de identidade trans é ainda mais complicado, porque na época a noção de gênero nem existia. No entanto, ela aplicou emplastros para achatar os seios, uma prática que lembra o binder. Não nos interessa atribuir a Erauso uma identidade definitiva, mas transformar a relação que temos com a história e com o presente. Por isso, o vídeo de Cabello/Carceller não proclama que ela era trans, mas que sua figura é questionada por pessoas trans contemporâneas não convencionais. Quem quiser reivindicar Erauso vai ter um problema, porque é uma figura obscura que se aproveitou das redes de poder de seu ambiente de classe alta para se envolver em um processo cheio de violência, racismo e misoginia.

De fato, ela buscou constantemente a proteção da Coroa e da Igreja…

Bem, isso pode servir como um prisma, certo? No século XVII não havia almirantes mulheres e, portanto, tal nomeação é uma forma de verificação de gênero. Na sociedade contemporânea, os campos de validação se deslocaram para o médico-legal. Eu mesmo, por mais dissidente que queira me apresentar, passei por um processo de validação para ter um passaporte atualizado com o qual viajar. Erauso é interessante porque suas práticas são tanto antagônicas quanto assimilativas das práticas mais normativas da masculinidade.

Outras referências históricas a pessoas trans e intersexo, como o coronel Amelio Robles e Florencio Plá Messeguer, também se destacaram nos exércitos ou na luta armada. Como você explica essa tendência?

Provavelmente, houve muito mais práticas dissidentes de gênero, mas as que ficaram na história, as que reconhecemos e foram certificadas administrativamente, são aquelas que têm a ver com os militares ou tiveram contato com o judiciário. No fundo, tem havido pouca pesquisa histórica sobre dissidentes sexuais e de gênero. Da mesma forma que a expansão do feminismo fez emergir uma avalanche de mulheres cientistas ou artistas, a metodologia da pesquisa histórica teria que mudar para que outros sujeitos emergissem.

O que lhe interessa em Erauso a partir de uma perspectiva contemporânea?

Uma das coisas que me parece mais interessante é entender como a sexualidade passou de um paradigma teológico-político para um científico-médico-farmacológico. Erauso teve práticas de gênero que não são fixas, mesmo que seja por estratégia de sobrevivência; quando regressa à Europa, antes de poder ter a bula papal, volta a identificar-se como mulher, para mais tarde significar-se como homem. Hoje, coletivos ativistas se propõem sair do regime binário, masculino/feminino, e inventar um paradigma de representação jurídico-administrativa em que praticamente não teríamos motivos para solicitar redesignações de gênero.

Você incluiu o discurso de Abya Yala?

Solicitamos um texto para o catálogo a Susana Vargas, escritora e ativista mexicana que tem investigado as práticas pré-colombianas de dissidência de gênero. Ela também publicou um livro sobre as mulheres que participaram sob nomes masculinos na luta livre masculina. Daqui a alguns meses, organizaremos um colóquio que também terá essa perspectiva.

No ano passado, Mag de Santos e Duen Sacchi incluíram Erauso em uma exposição anticolonial em La Virreina, em Barcelona. Eles lembram que o poder aceitou a masculinidade de Erauso como recompensa por seu papel sanguinário na conquista.

Nunca tinha lido uma autobiografia em que o autor se vangloriasse tanto de seus atos violentos. É algo que me chamou a atenção, pois há até um ponto de exagero no número de pessoas que liquida em seu caminho. Obviamente, parece que a violência é uma das práticas que o legitima como homem. Se Erauso não fosse uma figura militar, envolvida na conquista, e de classe alta, ele praticamente não teria chance de acessar uma mudança de nome legal ou a bula papal.

Certos discursos feministas continuam a associar a transexualidade masculina ao privilégio patriarcal. É um preconceito?

Parece-me um erro, porque um homem trans nunca poderá ser aceito como homem na sociedade heteropatriarcal. Sempre se diz que fazer a transição significa acessar uma posição privilegiada, mas não é real. Você tem um passaporte masculino, mas se algo acontecer com você e você precisar se despir para a polícia, você estará imediatamente em uma posição de vulnerabilidade. Da mesma forma que olhar para o passado masculino de mulheres trans é uma forma de transfobia, também o é pensar que homens trans se integram totalmente a uma sociedade patriarcal e a uma masculinidade violenta. Eu me pergunto até que ponto a exibição de violência de Erauso não responde também a essa extrema vulnerabilidade naquele contexto de uma mulher na Marinha no século XVII.

Se um homem trans nunca será aceito como homem, como deve ser enfocada a intervenção nas infâncias trans?

Atualmente, as técnicas de construção do gênero são químicas; qualquer menina na puberdade sai do médico com a pílula na mão. No entanto, um menino da mesma idade que não se identifica com o gênero atribuído ao nascer precisa passar pelo consultório do psicólogo e esperar 18 meses para receber a prescrição de hormônios. Parece-me que meninas e meninos trans não devem ser privados de práticas de redesignação de gênero, simplesmente com a desculpa de que são normalizadores, pois a alternativa é normalizá-los em seu gênero de nascimento. Tenho muitos relacionamentos com famílias heterossexuais que me dizem que se tornaram queer e leram meus livros para entender seus filhos. Uma mãe me conta que, agora que seu filho de 13 anos está tomando bloqueadores hormonais, ele começou a dizer que é não-binário: pintou o cabelo de rosa, pinta as unhas e usa saia! Mas quer retirar seus peitos de qualquer maneira. Em outras palavras, ele tem uma visão muito mais sofisticada de como constrói seu gênero; ele percebe que intervir com hormônios em seu corpo não o impede de ter práticas conotadas como femininas ou gays.

No meu entorno, ouço o lamento de que não existem mais meninos queer ou meninas sapatão, porque agora todo mundo é trans.

Isso é falso. Além disso, se fosse assim, qual seria o problema? Por outro lado, meninas trans podem ser lésbicas e meninos trans gays. Eu sou trans, mas, no fundo, ainda sou lésbica. Eu não lamentaria se a homossexualidade como tal deixasse de existir para ser suplantada por outras práticas de dissidência de gênero. Encaro a heterossexualidade e a homossexualidade como estéticas do gênero, bem kitsch, diga-se de passagem. As lésbicas são menos, porque saíram mais desse circuito de normalização. O interessante é multiplicar a estética dissidente, vê-los como algo plástico, que pode ser transformado.

Está me parecendo que as políticas de identidade são um problema para você? Elas estão afetando a construção de sujeitos políticos transformadores?

Não sei se chamaria isso de problema, mas as políticas identitárias são herdeiras de uma taxonomia do século XX, com categorias muito rígidas e naturalizadas que geram muitos conflitos e exclusões. Vimos isso na manifestação de 8 de março: não me importaria se houvesse 50 manifestações feministas em Madri, mas essa divisão tem a ver com a preocupante consolidação de um feminismo dedicado à preservação da identidade feminina. Estou muito mais interessado em práticas de dissidência do que em identidade; e estas são mais intensas justamente naquelas questões que geram pontos de fratura no feminismo, como o trabalho sexual, a pornografia ou a transexualidade. A identidade continua a ser uma ficção política que não é tão estratégica quanto parece; quanto mais violência (pensemos em pessoas racializadas) e normatividade, mais difícil é poder realizar esses exercícios de desidentificação que podem gerar processos de emancipação. No contexto em que estamos, estou mais interessado no que chamo de alianças sintéticas, que não são geradas por identidade, mas por projetos de transformação social.

Que leitura você faz então da corrente que fala do apagamento das mulheres? Uma teoria é que serviu às mulheres próximas ao poder para boicotar o projeto de transformação social do movimento feminista.

Parece-me uma boa leitura. A verdade é que existe um feminismo conservador e neoliberal que, infelizmente, está até bem representado e consolidado dentro da esquerda. Para esse feminismo, as dissidências sexual e de gênero são práticas de ruptura social e tentam excluí-las do feminismo normativo. Parece-me triste. Organizamos o congresso Feminismopornopunk em Donostia em uma época [2008] de efervescência de práticas dissidentes, e então eu não via muito feminismo por ali. Agora que o feminismo virou moda, que todo mundo pode ou tem que ser feminista, o cursor se moveu para a direita. Um feminismo com o qual todos concordam tem que ser um feminismo muito mais conservador. Não me sinto nada identificado ou interpelado por esse feminismo.

Vozes feministas antiqueer classificam essa corrente como neoliberal e pós-moderna.

Acho que queer se identifica como neoliberal porque se identifica com algo que vem do contexto norte-americano, mas é óbvio que surgiu justamente como uma crítica às práticas de normalização de classe, raça e gênero que estavam ocorrendo dentro do movimento homossexual nos Estados Unidos, quando a Espanha ainda saía do franquismo. Se há algo neoliberal, são as práticas gays mais normalizadas dentro do estilo de vida capitalista neoliberal, mas as práticas queer sempre foram dissidentes. O que chama a atenção é que essa frente antiqueer ainda é uma frente universitária, de classe alta, que não participou da prática de transformação social ativista. Vejo um corte geracional e de classe nesse feminismo iluminista representado por pessoas como Amelia Valcárcel.

Esta exposição pode nos ajudar a responder?

A figura histórica de Erauso não nos ajuda a legitimar nada, porque não há muito o que recuperar nessa história de colonização e nacionalcatolicismo; poderia servir a um hipotético movimento trans da extrema direita. É isso que é interessante: como ele não é uma figura heroica, ele nos permite fazer uma leitura mais complexa da história.

Entrevista de Paul B. Preciado a June Fernández publicada em Pikara online magazine em 16 de março de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/03/me-interesan-alianzas-no-generan-identidad-sino-proyectos-transformacion-social/

Tradução: Luiz Morando.

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