A favor de menos identidade

Em recente entrevista com a antropóloga Mari Luz Esteban[i], a jornalista Iraia Oiarzabal destacou o seguinte na manchete, como ideia central da concepção de Esteban: “Quer nos sintamos velhas ou jovens, devemos criar uma identidade política como velhas feministas”. Durante a entrevista, Esteban desenvolve e esclarece as coisas, e o que foi dito acima não passa de uma frase. Mas, com sua permissão, tomarei essa ideia como desculpa para desenvolver um pouco meu ponto de vista sobre identidade.

Por que realmente precisamos de mais identidade no feminismo ou na esquerda? Ou acaso precisamos de mais ‘identidades’? Acho que nem um nem outro. Cuidado, não tenho dúvidas de que é necessário continuar refletindo no feminismo sobre o envelhecimento. A própria Beauvoir escreveu um ensaio de mais de 500 páginas sobre a velhice e também A cerimônia do adeus, sobre o processo específico de envelhecimento de Sartre, seu companheiro de vida. Hoje, nas Ciências Sociais, já existe um campo de pesquisa que pode ser chamado de gerontologia feminista, também bastante desenvolvido. Como diz a própria Mari Luz, a sociedade envelhece. O feminismo, que também é reflexo da sociedade, não pode ignorar a questão. Sem dúvida, a velhice e o envelhecimento é uma das questões do nosso tempo. Tem vínculos com questões prioritárias na agenda feminista, como o cuidado, e com outras que é muito difícil para nós abordarmos no Ocidente, como a morte.

Mas, na minha opinião, isso não precisa nos levar a construir uma nova identidade política; neste caso, a de mulheres ou feministas mais velhas. É verdade que, na sociedade da urgência, da novidade e da inovação, a velhice não é equiparada à sabedoria vital, não é valorizada, mas desprezada e basicamente marginalizada. E no nosso mundo, se há uma coisa que podemos prever com precisão matemática, é que identidades desprezadas, identidades humilhadas, reaparecerão orgulhosamente com a pontualidade de um relógio suíço.

No entanto, talvez devêssemos lembrar que as identidades eram desvios estratégicos. Meios para um fim, não fins em si mesmos. O que acontece é que, sem perceber, nos perdemos nas rotundas, ficamos a viver no desvio e alimentamos as identidades como se fossem animais de engorda. Identidades coletivas, no plural (sexuais, nacionais, de gênero) e identidade pessoal, no singular (eu, o que e quem sou eu, esse ser extraordinário supostamente irrepetível e único).

Parece que, em vez de politizar identidades coletivas, que é o que se tratava no início, passamos a transformar opções e apostas políticas em identidades: feministas, nacionalistas, de esquerda, anarquistas, comunistas, anticoloniais, antirracistas, queers… são propostas e opções políticas. Não são, precisamente falando, identidades. Claro que, em certo sentido, posso dizer que “sou” comunista ou feminista, mas isso aponta mais para meus objetivos e meu projeto político do que para o que sou; indica o que quero, o que estou procurando, como quero que o mundo seja.

Uma pessoa não é “no mesmo sentido” mulher e feminista, homossexual e queer, do País Basco e nacionalista. Algumas coisas somos apenas de vez em quando (por exemplo, eleitores); outras, de forma irregular (audiência de um espetáculo, por exemplo); outras, inesperadamente (primos de uma celebridade, digamos); muitas outras, sem perceber (pedestre, digamos). Algumas coisas somos por nascimento; para outras nos tornamos indiferentes ao nosso desejo ou vontade, como no caso de envelhecer; muitas outras, nós decidimos, mostram o caminho que escolhemos. E embora meu projeto político possa ser a espinha dorsal desse “eu sou”, acho melhor chamá-lo assim, como uma “opção política” ou algo semelhante, diferenciando-o de identidade. Para não confundir as coisas, digo.

É verdade que, durante muito tempo, quando ser feminista era malvisto e desprezado, as feministas tinham que se proclamar orgulhosamente feministas, e isso continua a acontecer até certo ponto. Mas o que alegávamos era um compromisso político, não um modo de ser propriamente dito (embora o pessoal seja político e embora existam conexões estreitas entre os verbos “ser” e “fazer”). É mais apropriado aplicar o orgulho à condição de mulher, gay, negra… ou seja, às formas ou identidades de ser humano que foram subestimadas, do que à opção política que subscrevemos. O feminismo da diferença foi encarregado de reivindicar a autoestima das mulheres, está também aí o chamado orgulho LGTBI, ou o lema Black is beautiful, ou o que Kortatu cantou “euskalduna naiz, eta harro nago [Eu sou basco e tenho orgulho disso]”. A simples afirmação de que nos orgulhamos em todos esses casos mostra que temos uma identidade politizada. Também não é necessário lembrar que você pode ser mulher sem ser feminista; classe trabalhadora, sem ser anticapitalista etc. Da mesma forma, você não precisa ser mulher para defender politicamente o feminismo etc. (Segundo o marxismo, é o ser que determina a consciência; talvez seja mais apropriado dizer que a ‘condiciona’, porque não há uma linha direta ou necessária entre o que somos e o que pensamos.)

Embora muitas vezes gostemos de acreditar no contrário, é a linguagem que nos leva a lugares inesperados. Isso acontece especialmente com o verbo “ser”. Somos muitas coisas, mas não somos todas as coisas no mesmo sentido. Há quase 2.400 anos, Aristóteles disse a famosa frase: “O ser é dito de muitas maneiras”. Ou seja, o verbo ser tem muitos significados. Ele o expôs em sua Metafísica, um dos primeiros tratados de ontologia (a parte da filosofia que trata do ser). Precisamente, segundo o pensamento pós-moderno (incluindo a teoria queer), a metafísica da substância era uma das coisas que devia ser evitada, mas de forma contraditória (ou talvez paradoxal), não só a metafísica, mas até a mística da substância através da política de identidade. Sem entrar na Metafísica de Aristóteles (não se preocupe!), digamos que podemos ser (o que quer que seja) de forma forte ou leve. Podemos destacar e sublinhar a identidade ou abrandá-la e suavizá-la. Vendo para onde a inflação das identidades está nos levando, proponho uma política feminista e de esquerda baseada na concepção mais leve possível do que somos ou não somos. Em outras palavras, para transformar o mundo precisamos mais “fazer” e menos “nós somos” ou “sou”[ii].

Aquelas de nós que estão envelhecendo podem aproveitar este momento-chave da vida para nos libertar de uma vez por todas das identidades estratégicas que tivemos que assumir em seus dias. Tínhamos que ser mulheres, lésbicas, jovens, bascas, rebeldes, punks, modernas… Agora vamos ter que desempenhar o papel de velhas para ter um lugar na sociedade? Ter voz ou agência no movimento feminista?

(Agora, não acredite, não esqueço que não existam atalhos e que o caminho será sempre o desvio. Mas, isso, o caminho, não a morada.)

Artigo de Teresa Maldonado publicado em Pikara online magazine em 23 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/02/a-favor-de-menos-identidad/

Tradução: Luiz Morando.


[i] A entrevista pode ser acessada neste link: https://www.naiz.eus/eu/info/especial/20220102/zahar-edo-gazte-sentitzen-bagara-ere-identitate-politiko-bat-sortu-behar-dugu-feminista-zahar-gisa.

[ii] Nota da autora: no original, em basco, há um jogo de palavras com o nome do periódico em que o artigo foi publicado, Naiz, que significa “eu sou”, ligado por sua vez ao periódico Gara (palavra que significa “somos “). Por sua vez, o Egin (“fazer”) foi o jornal de referência da esquerda nacionalista anos atrás, no lugar que ocupam hoje, precisamente Naiz e Gara.

3 comentários

  1. Gostei muito! Ontem tinha visto uma referência dessa antropóloga Mari Luz Esteban; trabalha sobre gênero e corpo; dei um Google, tem várias publicações, bem interessante! Bj Cida

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  2. Oi Fá, quanto à sexta disponível, a última do mês com certeza e a segunda sexta terei às vezes. Vamos deixar marcado esse mês na sexta dia 26? Bj Cida

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