O corpo gordo como espaço político: gordofobia, capitalismo e classe

A concepção histórica de gordura vem evoluindo e se adaptando aos valores de cada época, mas o estigma em relação aos corpos gordos certamente não é algo recente. Atualmente, a visão da gordura tem uma relação estreita e complexa com o capitalismo. Há a exigência de se enquadrar em um sistema em que a autogestão do corpo se torne reflexo da capacidade de assimilação aos modelos neoliberais. Da mesma forma, o aumento da gordura entre a classe trabalhadora tem um papel fundamental no desenvolvimento da gordofobia. A gordura simboliza a incapacidade de adaptação da classe trabalhadora aos padrões neoliberais.

O historiador francês Georges Vigarello analisa como, desde a Idade Média, o olhar sobre os corpos gordos se intensificou e recrudesceu. No imaginário católico, o gordo é um pecador aprisionado pela gula; durante os conflitos sociais, a gordura se encarna no ventre burguês, símbolo de opulência e status social; na atualidade, as pessoas gordas são aquelas que não têm força de vontade, autoestima e capacidade de mudar.

A partir do final do século XIX, começou a haver um maior interesse social pelo corpo e se estabeleceu o modelo de rejeição social dos corpos gordos que habitamos atualmente. Por parte da comunidade científica, cresce o interesse em medir e classificar a gordura, estabelecendo as bases para o Índice de Massa Corporal atual. Dessa forma, a altura está relacionada ao peso criando parâmetros de normalidade corporal. Da mesma forma, dois tipos de gordura são claramente indicados: a derivada dos excessos e a produzida pela doença. Com este novo visual, a gordura é em ambos os casos principalmente reversível e, portanto, tratável. É aqui que a dualidade entre ‘obesos’ fortes e robustos e ‘obesos’ fracos, que prevaleceu desde a Idade Média, é finalmente quebrada. A partir da década de 1880, a publicidade sobre o mercado de dietas disparou, evidenciando a rejeição social da gordura. Da mesma forma, os ‘truques milagrosos’ que ainda perduram, como caldos, chás, saladas e comer em porções pequenas para distrair a fome e emagrecer, viram moda.

Ao mesmo tempo, há uma maior curiosidade (ou morbidez) sobre a gordura ‘extrema’, que é vista como algo monstruoso digno de ser exibido. Nesse sentido, os gordos, principalmente as mulheres, eram despidos e exibidos em feiras para entretenimento dos demais. Sabrina Strings, em seu livro Fearing the black body: the racial origins of fatphobia, defende as origens raciais da gordofobia na exibição de mulheres negras gordas. Mulheres gordas eram mostradas como exemplo de decadência e selvageria, seus corpos gordos encarnavam tudo o que as mulheres brancas não deveriam ser. Assim, o medo da gordura está entrelaçado com o racismo. A autora defende que a concepção da mulher negra como um ser selvagem, sem intelecto, incapaz de controlar o apetite e o comportamento sexual, evidencia as raízes coloniais da gordofobia. A exibição do ‘anormal’ permitiu que os espectadores se distanciassem do ‘outro’, associando a magreza à brancura e a gordura à negritude.

A partir da década de 1920, há uma mudança de paradigma em que a aparência musculosa e ágil assume um papel maior, delineando a imagem atual do corpo e equiparando a gordura à falta de desempenho. O desaparecimento gradual do espartilho (usado até em homens gordos) provoca uma maior fixação no corpo da mulher e suas curvas. Duas classes de gordura feminina são analisadas e estabelecidas: aquela que experimenta uma engorda esférica e aquela cujos quadris concentram essa gordura. A proeminência da barriga ainda é vista como uma característica puramente masculina.

Por outro lado, é nessa época que operários e camponeses começam a ser caricaturados com corpos gordos, outrora reservados à burguesia. A gordura começa a ser um fenômeno crescente entre a classe trabalhadora, produzindo um maior distanciamento e rejeição em relação aos corpos gordos, cada vez mais associados à pobreza e à vulgaridade. Aqui começam as comparações entre o que Vigarello chama de ‘civilizados’ deformados, aqueles operários com corpos gordos, e os ‘primitivos’ fortes, ágeis e burgueses, que responderam a um modelo de corpo mais ‘cuidadoso’. A gordura nunca foi tão denunciada como agora. No caso das mulheres, a crítica é mais feroz, pois se promove uma magreza longe das formas arredondadas, mas sem se tornar ‘masculino’.

Com o novo século e a intensificação da crítica às corporalidades gordas, começa a haver uma maior preocupação com a gordura inscrita no cotidiano, ou seja, das ‘formas discretas de gordura’ como a celulite. Além disso, com a ampliação dos dados sobre a gordura e a ascensão da cultura da magreza, há uma mudança no estigma: a pessoa gorda deixa de ser simplesmente um comilão e é alguém que evita, evita ser magra e não se esforça suficiente para se adequar à norma. O defeito da mulher gorda vai além da corporalidade: o corpo se torna reflexo da incapacidade de transformar.

Vinculado à ascensão do capitalismo, defende-se o ‘autogoverno’ e a responsabilidade individual das pessoas de mudar, de se adequar ao modelo produtivo da corporeidade. A popularização da balança como objeto essencial em todos os lares tem papel fundamental na criminalização da gordura. O controle social se materializa no nível íntimo e aumenta a pressão sobre a responsabilidade individual para entrar na ‘normalidade’. Portanto, a obsessão pelo peso é naturalizada e vista como um comportamento saudável, necessário para a autopreservação.

Além das dietas, a obesidade se confirma como patologia e se consolida todo um mercado e profissionalização em torno dela. A prioridade não é mais apenas adequar o modelo estético, mas também o médico. A pessoa deve ser produtiva em função do mercado e para isso deve ser saudável, ou seja, ser magra. Isso acarreta um duplo sofrimento para as pessoas gordas: por um lado, a difícil aceitação da gordura e, por outro, a meta inatingível da magreza. Há uma perda de identidade onde o corpo é experimentado como uma evidência constante de fracasso. Dessa forma, a perda de peso é imposta como parte de um comportamento adaptado, e a gordura é concebida como uma doença social.

Assim, durante os séculos XIX e XX há uma transformação da visão do corpo. A importância e atenção dada a ela não mudou especialmente, é o status que mudou. O corpo é, neste momento, o centro da identidade. Esse deslocamento está ligado ao individualismo e à ascensão do capitalismo. Schorb postula que a associação entre magreza e reconhecimento como boa cidadania está no mesmo nível da degradação política da classe trabalhadora no discurso neoliberal. A ascensão dos corpos gordos entre a classe trabalhadora os retrata como incapazes de se adaptar às demandas de autossuficiência e autorresponsabilidade. Dessa forma, a gordura e a pobreza estão inter-relacionadas, entendendo que ambas têm suas causas na falta de capacidade adaptativa da classe trabalhadora.

Biopoder, biopedagogias e capitalismo

A incorporação individual da vigilância, ilustrada por Foucault no panóptico, muda o olhar: o indivíduo torna-se fonte de sua própria submissão. Além disso, com a padronização dos parâmetros para medir a magreza, quem não se enquadrar na norma será destacado e marginalizado, servindo como representante de tudo o que ninguém quer ser. Como explica Hannele Harjunen, peso e altura tornam-se uma questão de biopoder e um espaço para ação disciplinar e punição. Cada pessoa deve se esforçar para poder apresentar um ‘corpo neoliberal’ que incorpore os valores neoliberais. Como explica Foucault, o corpo se torna útil quando é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo sujeito.

Assim, o biopoder, ou seja, o governo e a regulação dos indivíduos e da população por meio de práticas relacionadas ao corpo, tem servido para estabelecer e normalizar práticas voltadas para a magreza. A classificação, mensuração e ordenação dos corpos não é acidental, responde a uma motivação que vai além da preocupação médica e está relacionada ao controle social.

Wright e Harwood falam de biopedagogia entendida como um conjunto de práticas destinadas a normalizar e disciplinar corpos gordos ou em risco de ‘tornar-se’. Os sistemas de controle são baseados no autogoverno criando um imperativo moral no qual a pessoa é responsável pela ‘manutenção e cuidado’ de seu corpo. Assim, exercício e dieta (fitness life) são estabelecidos como práticas associadas ao sucesso. Laura Contrera explica dizendo que vivemos em sociedades controladas nas quais há uma imposição de vida saudável que nos obriga a nos “melhorarmos” para nos encaixarmos. Tudo para ter uma presença digna de ser vista e elogiada em termos de mercado. O conceito de biopoder nos ajuda a entender que o corpo é um espaço político no qual os valores sociais são materializados e reproduzidos. A pedagogia em torno do combate à obesidade é vendida como necessária, reproduzindo a visão de corpos gordos desprovidos de vontade. Assim, essas biopedagogias não são desenvolvidas apenas nas escolas, mas também permeiam as redes sociais, televisão, rádio, propagandas e até cartazes nas salas de espera dos hospitais. Alguns buscam explicitamente mudar o comportamento das pessoas que o leem (como campanhas contra a ‘epidemia da obesidade’), enquanto em outros casos as mensagens são mais sutis e mais profundas.

Portanto, a íntima relação entre capitalismo e gordofobia não pode ser ignorada. O imperativo do autogoverno corporal e as práticas de controle sobre ele mostram que há um interesse além da preocupação com a saúde. Instituições como o mercado aproveitam a gordofobia para lucrar; além disso, a indústria da dieta e beleza se alimenta dessa concepção socialmente validada.

Por tudo isso, não podemos separar a luta contra a gordofobia da luta contra o capitalismo. Da mesma forma que não podemos ignorar que o sistema capitalista atravessa todas as corporalidades em termos de gênero, capacidade, classe e raça e que, portanto, há uma luta comum. A gordofobia não é um evento isolado; como vimos, há uma profunda relação com o gênero, mas também com a marginalização dos corpos deficientes, racializados e da classe trabalhadora. Cabe perguntar, então, de quem são os corpos apontados ao falar da gordura como problema e entender que a patologização dos corpos dissidentes não pode ter espaço dentro dos movimentos emancipatórios, pois é assim que reproduzimos e perpetuamos o neoliberalismo.

Artigo de Rut Navarro Mahiques publicado em Pikara online magazine em 23 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/02/el-cuerpo-gordo-como-espacio-politico-gordofobia-capitalismo-y-clase/

Tradução: Luiz Morando.

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