Colocar o corpo

Devemos reconhecer que somos contraditórias. Não precisamos disfarçar isso com o curinga da complexidade. Às vezes, dizemos uma coisa e o contrário disso. É algo que pode acontecer quando são despachadas com um rótulo coisas que precisariam de uma reflexão mais profunda e matizada.

Em 1971, um grupo de mulheres feministas em Boston publicou um livro que ficou muito famoso, chamado Our bodies, ourselves (Nossos corpos, nós mesmas, em tradução livre). Ele levantou muitas questões relacionadas à saúde e sexualidade da mulher a partir de uma perspectiva feminista. Devido ao imperialismo cultural, o fato de sua origem estar nos Estados Unidos fez com que o livro fosse amplamente distribuído. Segundo a Wikipedia, foi traduzido para 29 idiomas. Tem sido uma referência para o feminismo de muitos lugares ao redor do mundo ao longo dos anos. Foi um livro pioneiro em proclamar e celebrar o prazer sexual da mulher, abordando também temas como envelhecimento, controle de natalidade ou identidade sexual de uma forma inovadora na época.

No entanto, parece que algumas colegas feministas pensaram que a denúncia do logocentrismo (que consideram obrigatória) necessariamente nos leva a nos acusar de excessos hiper-racionalistas. Esses supostos excessos hiper-racionalistas teriam nos feito esquecer que somos um corpo (e não apenas uma mente). Que somos ou que temos um corpo, isso não está claro (é muito diferente pensar em termos de “eu tenho um corpo” do que pensar em termos de “eu sou um corpo”, mas vamos deixar isso agora). A partir daí, começou a rolar a chamada para colocar o corpo aqui ou ali.

Mas às vezes dá a sensação de que o que importa não é colocar o corpo, mas usar a expressão “colocar o corpo”, embora não esclareçamos depois onde colocá-lo ou por quê. Pressupõe-se ou subentende-se que, ao dizermos que temos que colocar o corpo não importa onde, estamos sendo muito concretas e materiais (não sei se materialistas também) e nada abstratas ou teóricas. Que a gente se envolve muito. Que somos muito responsáveis. Que agimos com cuidado… A tudo isso se vinculou o convite para “colocar o corpo”. Confesso que nem sempre entendo bem o porquê.

Somos contraditórias, digo. Porque, assim como denunciamos que o feminismo de alguma forma esqueceu o corpo (quero insistir que não é assim, o corpo está presente nas análises feministas há pelo menos meio século), outras vezes dizemos que o patriarcado transforma as mulheres em meros corpos (para a publicidade sexista, para o prazer masculino heterossexual, para a obtenção de embriões por meios “naturais” ou artificiais). Feministas denunciaram que o patriarcado, ou melhor, no patriarcado os homens nos tratam como se fôssemos meros corpos. Ou seja, como se não tivéssemos/não fôssemos o que na Grécia Antiga chamaram de psique (alma, espírito, mente). Tratar-nos como meros corpos era nos transformar em coisas, nos objetualizar, nos conceber como se fôssemos objetos e não pessoas completas. Algo totalmente inaceitável e rejeitável.

A reivindicação retórica insistente e obsessiva do corpo faz com que alguns textos feministas pareçam a noite dos corpos vivos. Corpos e corpas escondem as pessoas que os possuem. Porque as pessoas têm ou são corpos, é verdade, mas não estamos reduzidos a isso. Nós também somos, ou temos, psique (alma, mente). Ao invés de tanta insistência em colocar o corpo, não faria mal colocar um pouco de mente em algumas coisas. Ou, dito de outra forma, coloque uma cabeça neles, que é apenas uma parte do corpo, afinal. (E não é ruim colocarmos alma no que fazemos, o que equivale a dar tudo, colocar paixão.)

Embora talvez… talvez não sejamos tão contraditórias, talvez sejamos apenas plurais. Insistimos repetidamente que existem muitos feminismos. Talvez haja um feminismo que queira reivindicar a razão. Não aquela razão presumida que é na verdade uma legitimação patriarcal (ou burguesa ou branca ou ocidental); razão e humanidade ao seco. Direitos humanos e não apenas direitos limitados a esta ou aquela identidade. Não direitos apenas para quem nasceu ou foi colocado deste lado da linha. Talvez a denúncia do que chamamos de logocentrismo, etnocentrismo e afins já esteja cumprindo seu papel histórico. Num momento em que o humanismo está sob ataque de tantas frentes (do animalismo, que enfatiza a continuidade entre humanos e outros animais; do multiculturalismo, que enfatiza a divisão da humanidade em culturas supostamente irreconciliáveis; do pós-modernismo, que anuncia a fragmentação da razão humana; do transumanismo, que equipara nossa inteligência aos computadores), talvez seja hora de proclamar que o feminismo é um humanismo. De perdidas, ao largo.

Artigo de Teresa Maldonado publicado em Pikara online magazine em 2 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2022/02/poner-el-cuerpo/

Tradução: Luiz Morando

Breve reflexão sobre o lugar do feminismo em uma cultura hiper-racionalista, logocêntrica e patriarcal.

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