O fantasmagórico perigo cor-de-rosa

Fazer o papel daquele que abre as portas e faz leitoras e leitores adentrarem no livro O perigo cor-de-rosa: ensaios sobre deimopolítica é tarefa que, ao mesmo tempo, intimida – pelo grau de perspicácia com que argumentos, conceitos, ideias, relações, conexões são feitos pelo Rick Afonso-Rocha – e deixa um traço de orgulho por ocupar este lugar. Mas não farei isto sozinho e já trago um farol para ajudar a iluminar, pela luz de uma alegoria, este empreendimento.

Em 1941, o argentino Jorge Luis Borges publicou o conto “A biblioteca de Babel”, no qual ele nos apresenta dois elementos simbólicos que se tornarão duas das palavras-valise de sua obra: a biblioteca como referência de espaço labiríntico onde se reúne e se dissipa o conhecimento universal, ilimitado e misterioso; o espelho como objeto que amplifica imagens e gera a perspectiva ilusória (ou não) do duplo e do infinito. No primeiro parágrafo de sua narrativa, a voz discursiva descreve o espaço da biblioteca alegórica:

O universo (que outros chamam a Biblioteca) constitui-se de um número indefinido, e quiçá infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono, veem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, em cinco longas prateleiras por lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das frentes livres leva a um saguão estreito, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva para o longe. No saguão há um espelho, que duplica as aparências fielmente. Os homens costumam inferir desse espelho que a biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?), prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito… A luz provém de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono; transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.[i]

A estrutura invariável dessa biblioteca – seja no sentido horizontal, entre as galerias hexagonais, seja no sentido vertical pela ligação do baixo ao alto, ao infinito, feita pela escada espiral – dá um dos sentidos de universalidade à alegoria. Uma estrutura que se assemelha a um organismo vivo, onde não faltam poços de ventilação para permitir a respiração e sanitários. Galerias que mantêm conexões e inte(g)rações entre os diversos repertórios bibliográficos a partir da distribuição aparentemente racional das informações (embora, em outras passagens do conto, ficamos sabendo que essa organização é muito mais complexa do que a descrição acima aparenta).

A estrutura do livro de Rick não é hexagonal, mas ela se aproxima (e acredito não haver exagero nisso) do que a alegoria borgiana pretende. Na verdade, é uma estrutura octogonal – cada octógono representado por um dos oito brilhantes ensaios – que aparenta se estender ao longo da forma de organização que o autor dá ao conjunto de seus textos. Há um eixo visível e retomado constantemente: o modo como a literatura, a ditadura e as dissidências sexuais e de gênero, formando esse núcleo central, são tratadas no jornal Lampião da Esquina. Esse eixo atravessa, como a espiral borgiana, as oito galerias desse universo espelhado. À medida que a leitora e o leitor vão passando por cada galeria-ensaio, ela/e se vê com o estímulo de reler o precedente diante do conceito que lhe é apresentado. Assim, cada capítulo traz um pequeno conjunto de conceitos que convergem e fortalecem aquele núcleo central, fazendo-nos vê-lo por ângulos e facetas diferentes, que o transformam e o tornam mais refinado.

É nesse sentido que vemos emergir as noções de literaturas ctônicas, de ditadura cis-hetero-militar, de deimopolítica, de homossacralidade, de utopia pornográfica, que acabam funcionando como perspectivas e instrumentos distintos para tratar aquele núcleo central. Ao mesmo tempo, vemos um processo de elaboração conceitual finíssimo sendo construído, bem como a mobilização e o manejo de um repertório variado (mas nunca excedente) de pensadores e pensadoras reunidos para sustentar aquele processo. Nos desdobramentos dos capítulos, que vamos acompanhando com interesse cada vez maior, vai se sedimentando com cada vez mais força a capacidade de abstração e formulação intelectual que Rick Afonso-Rocha possui. E este prefácio seria inútil se não destacasse pelo menos três, entre diversos outros, quadros conceituais apresentados neste livro.

A noção de deimopolítica criada pelo autor é muito original, além de atual e dialógica com/entre vários intelectuais de diversos campos do conhecimento. Para Afonso-Rocha, a deimopolítica se organiza sob a forma de governamento que toma os corpos de exceção (aqui, para este livro, os corpos LGBTQIA+) como aqueles que devem ser temidos. A partir de uma perspectiva neofascista (como o autor grafa), esses corpos de exceção são responsáveis pela suposta desestabilização moral, de costumes, social e, consequentemente, política. Corpos insubmissos devem ser reprimidos por meio da configuração de uma força social coercitiva, que os demoniza por meio da generalização do sentimento de pânico. O Estado deimopolítico se aproximaria da realidade que vivemos no Brasil com a união de forças do bolsonarismo, do fundamentalismo religioso e do capital financeiro-industrial.

Outro conceito é o de utopia pornográfica como a forma de reação que o Estado deimopolítico organiza para se contrapor ao suposto e fantasmagórico estilo de vida que ameaça os costumes, a moral e blá-blá-blá, que desvia as pessoas e inocula nelas os germes das dissidências sexo-gendradas. Como Rick bem caracteriza, essa utopia produz um “território de ficções como real, ou melhor, como hiper-realidade”, iludindo a população, construindo um discurso sustentado por uma visão fundamentalista de moral e reforçando o lugar de desvio e marginalidade para os dissidentes de sexo e de gênero. Enfim, a utopia pornográfica organiza em torno de si um contexto constituído sobre as dimensões necropolítica, biopolítica e deimopolítica do biopoder.

Por fim, a concepção do quadro sinóptico organizado para apresentar as quatro formações históricas que Rick visualiza na cultura brasileira para caracterizar o modo como as dissidências sexuais e de gênero foram construídas e representadas. O quadro reúne um esforço potente de compreender como, ao longo de nossa cultura, determinadas categorias sexo-gendradas foram constituídas a partir da confluência de cinco campos (regime de enunciado, campo de visibilidade, sujeito mutilado, paradigma de governo e funcionamento semântico) para forjar quatro formações históricas: o pastoralismo sexo-gendrado (no período colonial), o juridismo sexo-gendrado (de 1830 a 1940), o psiquiatrismo sexo-gendrado (a partir de 1930) e o cis-hetero-militarismo (a partir de 1960). Inclusive, essa visão permite-nos perceber as interpenetrações, sobreposições, intersecções dessas formações históricas, além de renovar a maneira de perceber os mecanismos de controle, vigilância, classificação, correção, ajustamento, marginalização que atuaram sobre aquele segmento.

Com O perigo cor-de-rosa: deimopolítica, homossacralidade, utopia pornográfica, Rick Afonso-Rocha nos beneficia com um olhar agudo, forte, bem argumentado sobre o atual momento político que vivemos. Se seu ponto de partida foi a literatura publicada para bichas no Lampião da Esquina, sua habilidade no manejo da teoria nos mostra de forma inquietante que as mudanças sempre foram perseguidas de forma subliminar pelas forças que, por ora, ocupam o poder e nos causam pânico, medo e a sensação incontida de mal-estar pelo futuro.

Este texto foi publicado como prefácio ao livro O perigo cor-de-rosa: ensaios sobre deimopolítica, que nosso colaborador Rick Afonso-Rocha acaba de publicar pela Editora Devires (https://www.queerlivros.com.br/produto/o-perigo-cor-de-rosa-ensaios-sobre-a-deimpolitica.html).

Luiz Morando


[i] BORGES, Jorge Luis. A biblioteca de Babel. In: ___. Ficções. Trad. Carlos Nejar. 4. ed. Porto Alegre, Rio de Janeiro: Editora Globo, 1986. p. 61-62.

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