“O sistema de dominação está nos levando ao seu fim lógico”

Vencedores e vencidos, dominadores e dominados, acreditamos que o mundo se constrói pela oposição dos primeiros contra os segundos e que sempre foi assim, mas, realmente, sempre foi assim? Não há alternativa? A socióloga e escritora austríaca Riane Eisler afirma categoricamente que não, que de forma alguma esse sistema que ela descreve como dominação prevaleceu ao longo da história e que, portanto, existe uma alternativa para um sistema mais justo onde todos nos encaixamos, ao qual ela chama de colaboração. As evidências históricas e científicas sempre estiveram aí, mas não temos sabido lê-las, pois sempre foram vistas a partir desse sistema de dominação.

Esta é a tese principal em torno da qual gira o livro El cáliz y la espada. De las diosas a los dioses: culturas pre-patriarcales[i], escrito por Eisler em 1987. Trata-se de um best-seller que revolucionou o campo da evolução humana e que é traduzido para o espanhol pela primeira vez pela editora Capitán Swing.

O que significa a teoria da transformação cultural e o que ela propõe?

Tradicionalmente, nosso imaginário foi construído por meio do que chamo de sistema de dominação e sempre se considerou que essa era a natureza humana. Sabe aquelas imagens em que o homem aparece com uma clava na mão e outra arrastando uma mulher pelos cabelos? O que essa história vai dizer é que a violência, a injustiça, a dominação sempre foram e sempre serão assim, faz parte de nós. No entanto, estudos multidisciplinares nos últimos dez anos dizem que não, que nem sempre foi assim e que, de fato, tínhamos as chaves diante de nós, mas não pudemos vê-las porque o contexto patriarcal em que nos movemos e a partir do qual interpretamos todas as informações nos diz que alguém tem que dominar. Nesse sentido, a teoria da transformação cultural não só desafia essa velha perspectiva de dominação, mas também propõe muitos elementos históricos específicos. Por exemplo, propõe algo que é óbvio: se pensarmos nos momentos de regressão (como a Alemanha nazista, a ditadura de Franco na Espanha ou os Estados Unidos com Donald Trump), eles mostram que a história não é linear, não há linha reta entre o mundo bárbaro e a civilização atual. Aplicando algumas das novas teorias, demonstra-se que há milhares de anos os humanos deste planeta viveram no que chamo de sistema colaborativo, mais equitativo, mais justo e onde a balança estava mais equilibrada. Mas as mudanças climáticas e as invasões sucessivas começaram a mudar essa dinâmica e o sistema de dominação foi estabelecido. Isso é importante porque agora estamos em um ponto de inflexão que vai além das ideologias, das religiões e que tem a ver com essa luta entre o sistema de dominação e o sistema de colaboração. O futuro realmente depende do que fazemos agora.

E se a interpretação dessas descobertas não tivesse produzido esse viés cultural? Você acha que as coisas seriam diferentes em nossas sociedades atuais e um modo de relacionamento colaborativo predominaria?

Uma das descobertas mais importantes desta pesquisa é que nossas categorias convencionais de pensamento na verdade ignoram ou marginalizam a maioria da população: mulheres e crianças. O que acontece com as mulheres não é apenas um “problema das mulheres”, mas também tem implicações sociais, culturais, econômicas, tecnológicas que afetam nosso futuro. Esse viés foi transferido para as interpretações feitas a partir da antropologia; na verdade, houve grandes descobertas (objetos, pinturas, esculturas) que explicaram muitas coisas que foram simplesmente ignoradas ou mal-interpretadas. Tudo isso estava lá, mas você não consegue ver se você acha que algo relacionado a mulheres não é universal. É difícil fazer esse tipo de conjectura, mas é claro que as coisas seriam diferentes e acho que essa é uma das razões pelas quais mudar a história, a falsa história da evolução humana, para a verdadeira história também abriria um leque de possibilidades. E isso é muito importante.

Por que você acha que esses estudos ainda são tão invisíveis e o discurso que agora sabemos ser falso ainda prevalece?

Por um lado, a educação, a história, a narrativa religiosa relutam muito em mudar, mas a história muda. Lembre-se que houve um tempo aqui na Europa com as cruzadas, a inquisição, a tortura. Um tempo em que você não conseguia nem pensar nos direitos humanos e muito menos nos direitos das mulheres ou das crianças, e isso mudou. Então cabe a nós mudá-lo, mas exige muito esforço, principalmente na área de educação.

Por que entendemos que uma sociedade só pode se desenvolver sob um sistema de dominação, ou seja, um contra o outro?

Porque aprendemos que existem apenas duas alternativas. Ou você domina ou é o dominado. Donald Trump disse: “É tudo uma questão de dominação”, e se você não dominar, você não é nada. É aqui neste sistema que o gênero e os aspectos culturalmente associados à masculinidade são mais valorizados do que aqueles considerados “femininos”. Por isso, acredito que temos que investigar tudo isso e mudar. E não se trata de dizer que devemos ser mais gentis, mais pacíficos. Temos que entender que isso está aqui muito antes do nascimento, mas pode mudar. Já temos muita gente, principalmente os jovens, que estão dizendo “espere um minuto”, estão desafiando essa concepção, essas ideias estabelecidas: por exemplo, falar sobre gênero fluido é um grande desafio para a concepção estereotipada de gênero. Precisamos ampliar a estrutura e reinterpretá-la também.

Que lições podemos tirar dessas formas de vida pré-históricas?

Existem muitas lições. Em primeiro lugar, podemos ver como este sistema de dominação se configura: Norte contra Sul, Leste contra Oeste, religião, totalitarismo… Sempre a principal prioridade neste sistema é a mesma: manter ou recuperar o que entendem por tradição e ordem. E nós, como progressistas, devemos e podemos mudá-lo. Temos que ir mais longe e ir às origens, não ficar apenas na superfície desse sistema de dominação que tem a ver com a economia ou com a política. Há educação para que, desde tenra idade, tenhamos as ferramentas para mudar narrativas, pensamento e linguagem. Precisamos de uma nova linguagem. Os psicólogos da linguagem nos disseram: categorias como patriarcado ou matriarcado, por exemplo, determinam nosso pensamento e nos tornam incapazes de pensar em outras possibilidades.

Quando ocorreu essa passagem do sistema de colaboração para o de dominação?

Existem muitas teorias sobre isso. Limito-me aqui à área do Mediterrâneo, onde temos a maioria das escavações. O que sabemos é que aspectos como as mudanças climáticas e a chegada de outras populações a partir da violência influenciaram o que mudou a concepção de pessoa. Mas é importante não o ler como algo inevitável, por isso insisto que o quadro pode ser mudado e agora estamos em um momento importante porque esse sistema de dominação pode nos matar e, de fato, está nos levando ao seu fim lógico, mas tenho muita fé no desejo humano de viver e também na criatividade humana. Sabemos que é possível mudar a configuração deste mundo.

Uma lição que podemos tirar e que deve ser lembrada neste momento é que o que temos podemos perder muito facilmente, que os momentos de paz e progresso cultural e social não são lineares.

Sim, gostaria, por exemplo, de não ver todas essas conversas e saberes reduzidos ao campo dos estudos de gênero, mas incluí-los nas aulas de sociologia, de política, de economia para que as pessoas entendam que existe outro caminho, mas temos que entender todo o contexto, não se trata apenas de ver e conectar os pontos.

Afinal, a história das mulheres é também a história da humanidade, somos metade da população…

Com certeza, e isso é importante para mulheres e homens. Isso não significa que eles não devam aprender sobre guerras, mas devem ser colocados e explicados no contexto, em vez de idealizar e mitificar certos momentos da história. E isso tem que mudar porque existe outro tipo de poder para iluminar nossas vidas. Precisamos de poder, mas deve ser redefinido. Não queremos voltar a um sistema de dominação.

Como você vê o futuro em relação à teoria da colaboração?

Bem, eu não tenho uma bola de cristal. Mais do que otimista, sou realista, não escrevo nem falo de uma utopia, mas a partir de fatos e de uma realidade. Eu acho que quando você entende a História e o que realmente aconteceu e o que é possível, então você sabe que ela pode ser mudada porque mudou em outros momentos. O caminho depende da rapidez com que reagimos a isso, porque, de fato, estamos em um momento crítico de transição. Temos que deixar claro que não podemos resolver problemas com o mesmo pensamento que os criou. Se isso é algo novo, temos que começar a pensar em outros termos e mostrar não só que é possível, mas que é melhor – e isso é crucial na atualidade.

Algum conselho?

Bem, meu conselho é lembrar que realmente precisamos de uma nova estrutura de pensamento e muitos jovens estão exigindo isso. A partir daí, você tem que desafiar essas velhas estruturas e mentalidades. Por exemplo, pare de pensar que os problemas das mulheres são coisas que afetam apenas as mulheres. Além disso, e não menos importante, devemos mostrar que é mais divertido. Enfim, não só para contrariar o pensamento hegemônico, mas também para demonstrar as possibilidades e alternativas, essa é a nova configuração que devemos construir.

Entrevista com Riane Eisler dada a Sarah Plaza Serna, publicada em 3 de novembro de 2021 em Pikara online magazine. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/11/el-sistema-de-dominacion-nos-esta-llevando-a-su-logico-final/

Tradução: Luiz Morando.


[i] No Brasil, o livro foi publicado pela editora Imago, em 1989, com o título O cálice e a espada: nossa história, nosso futuro.

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