Monocultura da verdade

Eu gostaria de escrever algumas coisinhas sobre a verdade.

Primeiramente, eu gostaria de dizer que a Verdade não morreu. Ela, para infortúnio de muitos teólogos da “revolução”, sequer existiu. A Verdade por trás de tudo, a causa primeira e última, a causa das causas, não passa duma tentativa de estabelecer um local para onde fugir quando tudo dá errado, um jardim secreto, um armário-entrada para Nárnia. A Verdade é o refúgio para aqueles que são incapazes de lidar com a própria vulnerabilidade, a qual poderia muito bem ser cuidada se cultivássemos entre nós a solidariedade.

Mas é preciso revolver a terra para que nela possamos cultivar algo.

Não me espanta que o desmatamento das florestas no planeta acompanhe a intensificação do individualismo e a fragilização das redes de solidariedade; que a poluição das águas acompanhe a nossa cada vez maior incapacidade de proferir palavras menos agressivas uns aos outros; que a poluição do ar acompanhe a sensação de sufoco decorrente duma rotina exaustiva de trabalho e da desconfiança mútua; que as tempestades acompanhem os sentimentos confinados em cada um de nós; que as mudanças climáticas acompanhem o luto que evitamos e que se manifesta de tempos em tempos, como é própria à sua circularidade, de maneira explosiva. Talvez sejamos nós que acompanhamos o planeta. Talvez não estejamos tão insulados assim do planeta. Talvez não haja um “nós” à parte do planeta, mas nós que nos atam as diferenças sempre superficiais.

É preciso revolver algo em nós para que possamos igualmente cultivar algo.

A tal da Verdade, na verdade, escreve-se com “v” minúsculo, conforme às demais letras que o seguem, e não é uma única, mas várias, quer quantitativa quer qualitativamente. Prepara-se a terra para semear alguma verdade.

Em seguida, depois de tomados certos cuidados, é possível ver uma verdade nascer, florescer, desabrochar, viver durante um período e então murchar e fenecer. Verdades, enquanto fabricações concretas, possuem finitude, diferentemente duma suposta Verdade, aquilo que há de mais metafísico. Uma verdade não tem como ser plantada se o terreno no qual se almeja plantá-la não for propício ao seu plantio. É preciso revolver a terra, não de uma vez por todas, mas constantemente. Algumas verdades são nutritivas, apetitosas, e muito saborosas quando combinadas com outras, mas nunca, jamais, absolutas ou eternas.

Tampouco são elas individuais. Diria até que os indivíduos são produtos dessas verdades. Isto talvez explique em parte a maneira como cultivamos as verdades, optando geralmente – por acreditar ser possível – por uma única.

Alguém poderia me contrapor, dizendo que a morte da Verdade tem relação direta com o aumento da fome e da miséria. Creio eu que o ponto seja outro: talvez as verdades das quais dispomos neste momento não estejam nos alimentando adequadamente, mas nos eliminando aos poucos. Eu comentaria, inclusive, que, tamanha a quantidade de agrotóxicos desnecessariamente utilizados, vez ou outra encontro um pouco de comida em meio aos agrotóxicos que encontro embalados nas prateleiras de supermercados.

São necessárias verdades que comportem as formas de vida em sua variedade, quer quantitativa quer qualitativamente. Isto não significa, entretanto, que devamos ser complacentes para com as pragas – o imperialismo capitalista com o seu colonialismo que devasta verdades em prol da monocultura da Verdade.

É preciso lutar pela terra! É preciso revolvê-la e cultivá-la, inclusive – e sobretudo – nas cidades!

Reflexão de Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s