Freiras, peste e sexo lésbico

Algum dia, filmes sobre lésbicas se tornarão mainstream, nos quais as mulheres realizam seus desejos carnais mútuos, e não as fantasias de homens heterossexuais, mas eu duvido muito que Paul Verhoeven os direcione para isso.

Benedetta é um filme inspirado em acontecimentos reais, embora possa não parecer. Baseando-se (à sua maneira) no romance da historiadora Judith Brown, da Universidade de Stanford, sobre a biografia de Benedetta Carlini, Verhoeven leva sua perspectiva extrema e seu deleite na intensidade e nas pulsões ao século XVII, de maneira que você não conhece se está diante de um filme histórico fracassado, um videoclipe bizarro, mas fascinante, ou um filme que admiraremos apenas quando não o levarmos a sério.

Sou daquelas que quanto mais a vejo, mais gosto de Showgirls (1995), e acho que algo assim poderia acontecer com Benedetta em alguns anos. É claro que o diretor Paul Verhoeven tem uma ideia muito específica sobre o que é sexo entre mulheres, e é claro que ele pensa que é um espetáculo a serviço do olhar masculino. Como em Instinto selvagem (1992), em Benedetta os amantes transam em poses estéticas facilmente filmadas, como nos filmes pornôs. Corpos normativos, beleza, magreza, curvas oportunas, carne trêmula, olhares muito intensos e gemidos muito oportunos; o sexo neste filme não se parece com sexo na realidade. E, muito menos, com o sexo entre mulheres. Mas se poucas coisas lembram a realidade no cinema de Verhoeven, por que um filme de Paul sobre uma freira lésbica com visões místicas seria realista?

Durante o filme, se você assisti-lo, certamente irá se mover entre a ansiedade e a descrença. Quando uma menina inocente e bem-nascida chupa o peito de uma virgem de pedra que cai sobre ela, quando uma jovem que foi torturada com um aparelho que deve causar terríveis dores vaginais e cujos gritos vindos da masmorra abalam todo o convento, mas recupera a libido rapidamente, você terá a sensação de que a chave básica de qualquer filme, que resulte verossímil, não está funcionando. Mas há algo neste filme que funciona – o que é ainda mais importante em qualquer criação artística: gera emoções do seu agrado e deixa-o perplexo com o que são.

Você não consegue entender se as alucinações místicas da freira protagonista são reais ou inventadas, aqueles devaneios em que Jesus é um sedutor que a deixa mais excitada do que católica. Você não consegue entender se a freira sabe que ela mesma provoca os estigmas que a fazem parecer santa. Não dá para entender se a abadessa, uma sempre soberba Charlotte Rampling – com seu olhar sempre gélido e sempre ardente – enfrenta a aprendiz de santa por fé, inveja ou vingança por sua filha. Não é possível entender se a noviça que inicia Benedetta, a intensa e carnal Daphné Patakia, é assim perversa e imunda por desejo, poder ou porque teve uma vida que a impede de cumprir as normas morais. Mas você fica aí. Envolvida pela música de Anne Dudley, o que parece incrível que ela seja a mesma compositora de Ou tudo ou nada (1997), pois ela fornece uma trilha sonora sobrecarregada e onipresente que torna tudo mais excessivo e angustiante.

Você termina o filme farta com tanta emoção.

Mas quando você sair do cinema, começará a pensar que caiu na armadilha. Verhoeven brincou com você e você levou isso a sério. Como em Showgirls.

Porque há coisas das quais Verhoeven não pode ter escapado, a menos que pretenda fazer passar como um filme histórico e biográfico uma sátira ao fundamentalismo religioso, as posturas, as lutas pelo poder em todos os espaços – do Vaticano a um convento –, as paixões “baixas” (porque acontecem abaixo da cintura), uma zombaria sobre como as pessoas são básicas, que nos movemos por inveja, ambição ou luxúria.

À medida que andava, fiquei mais convencida de que Verhoeven havia introduzido isso furtivamente. Ok, uma freira do século XVII pode ser linda – Virginie Efira desenha o papel de uma freira um tanto maluca, inconsciente de sua beleza, mas disposta a explorar o quão longe ela pode chegar com ela – mas a nenhum departamento de maquiagem e cabeleireiro para 22 pessoas escaparia que a atriz usa uma balayage perfeita com algumas camadas de cabelo caro. E vale a pena que o cinema medieval nos convenceu que todas as mulheres, até freiras, dormem com camisolas de algodão brancas claras e transparentes, que caem por qualquer coisa para mostrar que não se usa nada por baixo, mas essas camisolas, esses hábitos emoldurando o rosto, não parecem próprios de algumas modestas freiras theatinas de um pequeno povoado de Pescia em 1600. Nem mesmo o povoado é verossímil, dá a impressão de que foi propositalmente feito para parecer um cenário. Como se fosse um palco de papel maché para representar uma história. Até o céu parece um croma.

Ao longo de todo o filme há um encanto com o obsceno muito típico de Verhoeven, que se exacerba no diretor quando colocado no modo medieval. A sordidez de algumas freiras, o quão descaradamente repulsivo Lambert Wilson é no papel do Núncio lascivo e perverso sem nuance, as imagens brutais que aparecem na mente de Benedetta, que lembram Tarantino, compõem um filme com personagens arquetípicos, distantes do conjunto de mensagens implícitas que Verhoeven te joga na cara. Ninguém é bom em um mundo onde todos acreditam que Deus fala com eles (ou os fode) diretamente.

O fedor da peste e da carne queimada atravessa a tela e você pode sentir o cheiro dos bubões negros e nojentos, a carne do seio da freira que se mutila (ou ela tem um tumor?), o ar contaminado das cidades infectadas. Às vezes você fica enojado. Mas aí você fica.

Não sei o que Verhoeven diria se perguntássemos a ele, mas a sensação é que ele fez um filme que é uma trapaça, então não saberia dizer se é um bom filme. Como com Showgirls ou Instinto selvagem. Mulheres más que não sabem se são, que você não acaba sabendo se acreditam que são santas. Homens que falam em nome de Deus, mas agem como pervertidos. Um povo que te venera, lincha, salva e volta a linchar, sem saber a qual mensageiro de Deus prestar atenção em cada momento.

Compartilho com Verhoeven o fascínio pelas mulheres dispostas a fazer qualquer coisa para sair da mediocridade, incluindo mentir, matar e foder. Mas eu não saberia o que dizer sobre Benedetta. Certamente este é o filme que poderíamos esperar que Verhoeven se pusesse a contar a história de uma freira lésbica do século XVII que dizia ter visões místicas e estigmas. Um filme intenso, perturbador, sobrecarregado e tórrido, em que as pessoas se masturbam, espionam, colocam figuras religiosas na vagina, muito sangue, muito mais do que o necessário, muitos peitos e saem do cinema com a sensação de que está sobrecarregado, e não é por causa da máscara.

Benedetta Carlini existiu, mas para Verhoeven serve de desculpa para exibir seu baralho de paixões e excessos. Se você quiser brincar com ele, vá ver.

Resenha de Irantzu Varela, publicada em Pikara online magazine em 6 de outubro de 2021. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/10/monjas-peste-sexo-lesbico/.

Tradução: Luiz Morando.

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