Susan Stryker. Olhar o mundo com lentes trans

Susan Stryker foi pessoa fundamental na criação dos estudos trans, um campo que se tornou independente dos estudos das mulheres graças aos mais de 25 anos de esforços essenciais dessa ativista trans lésbica. Historiadora, artista e editora da revista TSQ: Transgender Studies Quarterly, durante sua passagem pela Espanha, ela nos deu um bom momento de conversa, na qual se referiu ao seu livro Historia de lo trans, recentemente publicado em espanhol. Stryker nos falou sobre a perspectiva trans como contribuição fundamental para enfrentar a crise ecológica e os governos de direita, sobre essa monstruosidade não humana que nos reserva um futuro, sobre o feminismo transexcludente e sobre a necessidade de nos ouvir para estabelecer políticas profundas de transformação. Em suas palestras, ela mostra que “o que vemos através de lentes transgênero é valioso para outras pessoas também”.

Mag de Santo: Como se vincula a crise ecológica e a ascensão da direita neofascista com os temas trans?

Bem, o mais óbvio é que apenas por viver como uma pessoa trans e andar pelas ruas, precisamos de políticas antifascistas. Mas, por outro lado, a questão da crise ecológica é causada pelo ser humano, vivemos no Antropoceno, e os humanos mudaram o planeta de maneiras que não nos permitirão sobreviver. As pessoas trans geralmente são chamadas de não-humanos, temos sido abjetas, literalmente transformadas em monstros. Minha posição sempre foi a de que isso não é uma coisa ruim, sabe? Pode doer, pode doer ou fazer você se sentir em perigo: sua vida se torna mais precária quando você está fora da comunidade humana. Mas precisamos de humanos diferentes. O potencial monstruoso das vidas trans como uma forma vivível não-humana ou pós-humana é valioso, é uma coisa muito boa. Nós, como pessoas trans, descobrimos na busca por sobreviver que uma transformação profunda é possível, que podemos fazer coisas que nos transformam e que transformam o nosso mundo. Isso é algo muito importante neste momento da história: podemos dar testemunho para outras pessoas que essa é uma capacidade de se unir para alcançar um novo sentido do que a sociedade pode ser. Agora, temos que resistir ao fascismo e lidar com o fato de que estamos em uma catástrofe ecológica. Para lançar as bases de nosso futuro de forma realista, devemos reconhecer as diferenças que temos e usá-las como uma forma de transformar tudo.

Duen Sacchi: Estava lembrando que te conhecemos através de um texto seu  antigo sobre o monstruoso…

Sim, o de Frankenstein.[i]

Duen Sacchi: Sim, foi a primeira vez que consegui relacionar minha autobiografia como pessoa trans com a monstruosidade e a literatura. Ler aquele artigo na época foi difícil, posso dizer que doeu. Era como um espelho, um espelho estranho porque eu não te conhecia e não pertencíamos ao mesmo contexto. A primeira vez que o li, senti uma raiva inarticulada, o próprio texto me fez entender algo do que eu sentia, expressa muito bem a raiva trans. O que você acha desse texto agora? O que você acha da raiva trans em geral? Especialmente na afirmação “não estamos na natureza”.

Não estamos “naquela” natureza, ou também, estamos na natureza porque a natureza é diferente assim como nós somos nela. Eu realmente não sei o que dizer sobre raiva, sabe? Em geral não estou cheia de raiva, sou uma pessoa calma. Mesmo assim, todas as microagressões que você enfrenta, a violência estrutural que pode matar você por ser trans, a incompreensão de tantas pessoas sobre quem você é e o que você faz, o fato de que é tão difícil para algumas pessoas apenas perceberem você, é como… Pum, pum! Um inferno. Costumo pensar na famosa peça americana sobre corrida, A Raisin in the sun [de Lorraine Hansberry]. Há uma passagem que diz que viver o racismo é como uma passa ao sol: vai queimar você e, pafff, vai explodir como uma bomba atômica. Também penso nos primeiros dias do feminismo lésbico cisgênero, nos anos 1960 e começo dos 70. Diziam que a lésbica é a raiva de todas as mulheres condensada a ponto de explodir. Eu sinto o mesmo por questões trans, é parte do que eu estava pensando quando escrevi aquele artigo sobre a raiva transgênero. Eu queria falar especificamente sobre o tipo de violência da experiência trans: estar totalmente fora da caixa, ser incompreensível para o mundo cisgênero. A raiva transgênero tem a ver com a suposição de que as pessoas cisgênero têm um gênero natural. A suposição de que o cisgênero está na ordem do natural e que o trans está fora dessa ordem e não é natural. Articular essa raiva é dizer: “Sim, nossa presença no mundo transforma as coisas e não preciso estar conectado com a natureza da maneira como você pensa.”

Mag de Santo: No seu livro você fala sobre a história trans a partir do século XIX com documentos governamentais, depois dos anos 1920 com os processos nas clínicas, dos anos 70 e 80 com os discursos do feminismo radical, e agora no século XXI com a hipervisibilidade e arquivos na internet. São coleções documentais muito diferentes para pensar a vida das pessoas trans e suponho que isso pressupõe um posicionamento metodológico diferente. Qual é a sua relação com os arquivos para acessar o passado trans?

Gosto de dizer que meu estilo de escrita acadêmica é eclético, misturo deliberadamente diferentes tipos de textos porque não acho que nenhuma dessas abordagens possa nos dizer tudo o que precisamos saber. O século XIX é o período em que a diversidade de gênero e sexual é medicalizada e psiquiatrizada. Em vez disso, talvez a coisa mais importante agora seja o que acontece nas redes sociais. Também acho que você tem que ser interdisciplinar e misturar diferentes caixas de ferramentas. Outra questão sobre historiadores e arquivos é como você pode entender o passado trans quando é uma noção contemporânea e só está presente em alguns contextos. Em certo ponto você pode fazer a história do trans e em certo ponto você só pode fazer a genealogia do que é trans agora. Do presente, você pode pegar essas lentes trans, essa perspectiva, e olhar o mundo e o passado por meio delas. Você verá coisas que outras pessoas não viram, notará algo através do tempo que ressoa no presente e então estudará.

Mag de Santo: A propósito da violência, eu também gostaria de perguntar a você sobre a nova ascensão de mulheres lésbicas cisgênero que apoiam um feminismo radical trans excludente [TERF, na sigla em inglês]. Em seu livro, você é muito crítica, mas também mostra alguma compreensão e aproximação.

Estou surpresa com o ressurgimento dos feminismos TERF. Achei que essas ideias desapareceriam porque as pessoas sabem mais sobre as questões trans. Para mim, é muito decepcionante e preocupante, mas sempre houve feministas que querem se aliar ao Estado. Não sei da história da Europa nem da história da América Latina, mas nos Estados Unidos sempre houve feminismos que eram policiais do puritanismo: contra o trabalho sexual, contra a pornografia, contra as pessoas trans. Esse feminismo está pronto para ir para a cama com o Estado e usar seus poderes para reforçar a moralidade e salvar as mulheres de coisas que podem prejudicá-las. E isso se torna um problema sério agora com a conceituação da ideologia de gênero, que vincula certos feminismos liberais com movimentos políticos reacionários e alguns fundamentalismos religiosos de uma forma transnacional. No Leste Europeu, na África ou na América Latina, a chamada ideologia de gênero é apresentada como algo importado do Norte que viola os valores tradicionais. Líderes autoritários como [Jair] Bolsonaro no Brasil, Viktor Orbán na Hungria ou [Donald] Trump nos Estados Unidos usam essa ideologia de gênero para conjugar um novo tipo de políticas racistas e nacionalistas que são mortais para pessoas queer e trans, pessoas de cor e migrantes. É por isso que novas políticas de coalizão são necessárias entre nós do outro lado, para lutar contra essas ideias perniciosas que estão se espalhando e que tornam nossos inimigos aliados. Não estamos nos aliando como um movimento de oposição e isso é vital.

Valentina Stutzin: Não é apenas Bolsonaro. Há também feminismos de esquerdas que estão dizendo que as políticas feministas queer são neoliberais, gringas, importadas.

Eu acho que é uma questão complicada. O capitalismo tenta governar políticas de identidade emergentes para se reproduzir e roubar possíveis formas revolucionárias. Há algo nas identidades políticas que não nos permite avançar. Por outro lado, por vivermos no que Foucault chamou de “sociedade biopolítica”, nossa vida flui pelas categorias que nos são possíveis, entre as categorias com as quais nos identificamos e contra as quais lutamos. São categorias utilizadas pelo Estado para fixar a população em um território e para governar a vida de acordo com seus propósitos. E, a propósito, a política de esquerda é inútil porque não lida com questões trans e queer.

Duen Sacchi: Pessoas trans também são muitas vezes acusadas de sustentar o binarismo de gênero. No caso argentino, houve um profundo debate com a Lei de Identidade de Gênero.

Conheço Mauro Cabral e a Lei de Identidade de Gênero argentina. É um bom exemplo de como as pessoas trans e intersexo lideraram uma mudança vantajosa para todes, um grande trabalho de despatologização que criou oportunidades para a autodenominação e mais espaço para as pessoas viverem com menos violência. A questão sobre o binarismo é complexa. A sociedade está atualmente organizada dessa forma, e questionar seu binarismo é uma luta muito, muito profunda. Eu acredito que primeiro você tem que aproveitar a oportunidade para se mover livremente entre ou através das categorias binárias, experimentar essa possibilidade e então lutar para derrubar esse binarismo.

Duen Sacchi: Essa conversa mais profunda que comentava, você vê possível ser feita no marco de relações neocoloniais?

Acho que todos temos que estar dispostos a ouvir através de nossas diferenças, acho que todos precisamos ser desafiados de maneiras que nos ajudem a mudar nossas posições, precisamos desses confrontos com as pessoas com quem queremos fazer alianças. Este não é o momento para politicamente correto ou para evitar dificuldades. Temos a possibilidade de dizer o que realmente está em jogo para cada um. Nos Estados Unidos estou muito desesperada, mas tenho orgulho de que Alexandria Ocasio-Cortez, uma jovem socialista do Bronx em Nova York, esteja promovendo o que chama de “novo acordo verde”, uma proposta comparável ao esforço que liderou os Estados Unidos para sair da Grande Depressão e vencer a Segunda Guerra Mundial. Bem, temos que ter uma resposta social nessa escala que direcione o tipo de mudança que precisa ser mobilizada para contra-atacar a catástrofe ecológica; temos que perder o medo de dizer a palavra “socialismo”; temos que dizer em quais aspectos da economia o governo deve intervir e nos impedir do absurdo do mercado livre. Ela está dizendo isso, ela é uma pessoa negra, ela está com pessoas trans e queer, ela é uma feminista, e ela é uma das políticas mais visíveis na América agora. Esta é realmente uma geração de transformações. Precisamos de mais pessoas desse tipo, não de liberais como Hillary Clinton ou Barack Obama. Precisamos que elas digam o que vai acontecer, o que elas realmente querem, em que realmente acreditam, e não o que elas calculam que manterá os mercados felizes ou o que dará mais votos, de acordo com um grupo de teste. Precisamos viver a política necessária para sobreviver.

Mag de Santo, Valentina Stutzin e Duen Sacchi entrevistam Susan Stryker para a Pikara on-line magazine. Publicada em 29 de setembro de 2021. Disponível em: <https://www.pikaramagazine.com/2021/09/susan-stryker-mirar-el-mundo-con-lentes-trans/&gt;.

Tradução: Luiz Morando.

A ativista americana Susan Stryker pede o reconhecimento de uma valiosa contribuição da perspectiva das pessoas trans para enfrentar a crise ecológica, a ascensão de governos autoritários e fundamentalismos.

[i] “Mis palabras a Víctor Frankenstein desde el Pueblo de Chamonix: Escenificando la Ira Transgénero*”, traduzido por Lucas Platero, publicado na antologia de textos de estudos trans norte-americanos Políticas trans, editado por Pol Galofre e Miquel Missé (Egales).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s