Noites de inverno

“Permita-me dizer-vos, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível imaginar um revolucionário autêntico sem esta qualidade.” (Che Guevara)

“Pacificado, classificado, mantendo-se na linha, cê tá indo bem / Perdeu sua voz? Não há escolha” (Penny Rimbaud)

Um dos sintomas de como vivemos numa sociedade de merda consiste na normalização do enunciado “todo mundo passa por isso, só você chora”. A maneira como é largamente pronunciado, acionado diante duma situação de desabafo, é indício de que a gente está na merda. “Aceite, que dói menos” é o que vem em seguida. Aos poucos, vamos aceitando o que deveria ser inaceitável.

Falamos constantemente sobre afetos, da importância deles, de expressá-los abertamente. Afetos não são exclusivamente positivos. Esgotamento, ansiedade, desamparo, tristeza, ressentimento, também são afetos, por sinal, fortemente presentes na sociedade em que vivemos. Todo regime social possui um determinado circuito de afetos. Transformações radicais implicam em transformações nesses circuitos de afetos, não na sua manutenção. Toda vez que dizemos “todo mundo passa por isso, só você chora”, o que estamos fazendo é entregar os pontos e dizer: “não há nada a ser feito”.

Somos seres vulneráveis buscando o tempo inteiro demonstrar uma força que não existe. “Solidariedade” não é um mero conjunto de morfemas e fonemas que algum universitário descolado lança num texto pra receber aplausos, mas algo concreto. Solidariedade tem a ver com se permitir experienciar outros afetos, exercitar aberturas consideradas impossíveis numa sociedade extremamente competitiva. Não se trata de buscar “mais família” ou “mais sentimentalismo burguês”, mas de entender como a família, enquanto aparelho ideológico de Estado, consiste numa determinada configuração de circulação de afetos. As expulsões de pessoas trans de seus lares é sintoma de como isto que denominamos “família” é incapaz de ser um espaço de acolhimento e de amor. Há exceções à regra, mas enquanto vivermos na organização social em que vivemos, o amor entre pais e filhos será uma impossibilidade, não porque o ser humano seja por natureza ruim, mas porque tudo aquilo que diz respeito ao âmbito pessoal diz necessariamente sobre o âmbito político. “O pessoal é político” – longe de ser um slogan para a promoção do individualismo, é a afirmação de que, exatamente por ser político, o pessoal é impessoal, isto é, não se trata duma natureza nossa.

“Mas também quando sou cientificamente ativo etc. – uma atividade que raramente posso realizar em comunidade direta com os outros – então minha atividade é social, porque a desempenho como um homem. Não só o material da minha atividade é dado a mim como um produto social (como também a linguagem em que o pensador é ativo): minha própria existência é atividade social e, portanto, o que faço de mim, faço de mim para a sociedade e com a consciência de mim mesmo como ser social”, diz Marx. A depressão não é coisa da sua cabeça não, um enunciado que costuma ser apresentado como forma de dizer: “não é real”. A depressão encontra-se emaranhada em cada ligação da sua rede sináptica, em cada fibra muscular, em resumo, no seu corpo.

“Seja você mesmo”, brada o slogan neoliberal. Mas e quando ser eu mesma implica em ser uma pessoa com depressão? Aí não pode. Por que não pode? A pessoa com depressão é a denúncia em carne – pretensamente – viva de que o regime de organização social no qual vivemos não pode oferecer outra coisa que um afogamento num fundo sem fundo, também conhecido como “eu”. “Ser você mesmo” coincide com negar o outro, a possibilidade de se tornar outro. Como diz Byung-Chul Han, “ele [o sujeito com depressão] ouve a si mesmo. Deve ser um empreendedor de si mesmo. Assim, ele se desvincula da negatividade das ordens do outro”. A solidariedade, como dito acima, exige uma abertura ao outro, e, consequentemente, um possível desfazer-se, que corresponderia a um aumento do campo da audibilidade, a uma capacidade de “escuta espreitando”, o que exige uma atenção profunda, até mesmo contemplativa, na qual o outro é captado. Apoiar-se mutuamente nunca é um processo de consolidação das individualidades como dados naturais, mas de fazimento e desfazimento. O gesto de confiança consiste num processo de fiação coletiva das nossas vidas, nunca um “EU” – do alto inalcançável da minha individualidade – “confio em VOCÊ” – também um alto inalcançável de individualidade –, havendo uma depressão entre esses dois altos inalcançáveis.

Aumentar o campo de audibilidade dos nossos ouvidos é um processo corporal, uma forma de capacitar os nossos ouvidos com o entendimento de que há sons – enquanto demarcadores de presença – que ignoramos com certa frequência. Não há espaço para o silêncio nas relações sociais. E se há algo como o silêncio, é preciso suspeitar – lembremos, por exemplo, que, ao adentrarmos uma floresta, o suposto silêncio é na verdade indício de algum grande predador à espreita. Aumentar o campo de audibilidade consiste, ecoando o que escreveu Ailton Krenak, no entendimento de que não estamos sozinhos. Caminhar implica saber ouvir, embora não necessariamente com os ouvidos. Uma sociedade de fones de ouvido não se depara com outra coisa senão com uma delimitação espacial – e até mesmo temporal. Não à toa, ao sairmos de casa, imediatamente consideramos retornar. Nos tornamos inaptos a ouvir. Ou melhor, nos tornamos aptos a ouvir exclusivamente o que consolida nossa individualidade, nossa subjetividade. Continuará Byung-Chul Han: “o cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando”. O mais no eu se expressa como um menos para o mundo.

Isto não significa que exista uma relação necessária entre as tecnologias eletrônicas e tais formas de subjetivação. É preciso entender as tecnologias eletrônicas inseridas em contextos sociais, não como elementos isolados e independentes de qualquer relação social, como ressalta Helen Hester. Uma chamada de vídeo pode ser uma forma de controle, mas também uma forma de desmantelar as fronteiras entre o privado e o público. Pode ser uma maneira de restringir contatos físicos, mas também uma maneira de construir pontes entre nós e quem amamos apesar da distância física.

O uso sem critério do termo depressão para se referir a qualquer coisa também torna seu uso ineficiente em alguma medida. Melancolia e tristeza não são formas de depressão. Esta é um mal-estar social específico, vinculado a determinadas formas de subjetivação, disseminada cada vez mais intensamente pelo neoliberalismo. Se qualquer coisa é depressão, o que temos é que nada é depressão, nada lhe diz respeito. As palavras são como instrumentos cirúrgicos que utilizamos durante uma análise. Se não estiverem afiados, nada cortam. Dissecar a realidade social, dar-lhe um diagnóstico, exige instrumentos que façam jus à função que lhes predestinamos.

O que buscamos ao falar sobre o necrossexismo é a tentativa de diagnosticar, de entender cicatrizes que nos acompanham desde antes do nascimento, as quais tentam nos devorar ao longo da vida; entender como incorporamos uma subjetividade, como nos tornamos quem somos, como incorporamos sexuações, e como estabelecemos relações necessárias entre determinados corpos e determinadas doenças, determinados corpos e determinados estigmas. O sexo é uma cicatriz.

As outras pessoas podem até passar pelas mesmas coisas. Eu realmente acredito que passam. Mas isto não significa que devemos ignorar como lidamos com essas coisas. Algumas pessoas choram, desabafam, bem como se mutilam, têm ideações suicidas e cometem suicídio. A repulsa pelo negativo faz com que nos distanciemos presencial e virtualmente de pessoas com ideação suicida. “O sujeito do desempenho”, como bem pontua Han, “não aceita sentimentos negativos, o que acabaria se condensando e formando um conflito. A coação por desempenho impede que eles venham à fala. Ele já não é capaz de elaborar o conflito, uma vez que esse processo é simplesmente por demais demorado”. Assim vamos condicionando o nosso campo de audibilidade, nos tornando insensíveis – no sentido corporal mesmo – ao mais sutil mudar de tonalidade do outro, ao “Oi” que sai baixinho entre os lábios mal abertos. Certos sons se tornam inaudíveis, como é o caso do pedido de socorro, de ajuda. “Fala logo!”, exigimos apressadamente. Mas se a pessoa fala prontamente, sem muito enrolar, um trajeto se bifurca: ou replicamos os afetos que acompanham o enunciado “mas todo mundo passa por isso, não só você” ou respondemos com um “eu não sei o que fazer”. O calar-se, então, se torna uma tentativa de se pronunciar em meio a tantos ruídos.

Dizer que “todo mundo passa por isso, não só você” é normalizar o esgotamento, a ansiedade, o ressentimento, os afetos que nos arrastam para o fundo sem fundo de nós mesmos. O real é imaginado como tal, consiste numa partilha do sensível. Normalizar a depressão é afirmar que o único mundo possível é o do esgotamento, da ansiedade, do ressentimento. Que resposta, então, damos ao tédio da existência? Fotos sorridentes! O gesto de bloquear facilita a pacificação do conflito. Acumulam-se “amigos”, seguidores, números, likes, objetos, até mesmo haters. Acima de tudo, acumulam-se feridas. Feridas estas que nos servem de trincheiras diante deste suposto único mundo possível contra o qual estamos em guerra, mesmo que fria. Quando amamos, quando amamos verdadeiramente, saboreamos a sensação inominável que nos toma. Amar é experimentar um afeto potente, deslocador, que nos tange as cordas da confiança como se fôssemos uma guitarra nas mãos do Jimi Hendrix. Amar não é encontrar a porta de saída, mas aprender a fugir. Pingo, um cão que tive quando criança, que vinha lamber meu rosto quando eu chorava, também me ensinou a fugir de casa, na qual me sentia asfixiada. Pingo me ensinou a amar amando, sem me direcionar palavra alguma. Até hoje amo com mordidinhas e lambeduras, desde que permitido. “Fica um pouco mais”, eu teria dito ao Pingo, assim como digo a quem amo. Há tantas formas de se dizer “fica um pouco mais”, nem sempre com palavras. Concordo com Émile Armand quando este diz que o amigo é um possível amante. Amo todos e os quero bem, quero escutá-los para que não se sintam sozinhos, embora eu mesma não saiba como ensaiar um único desabafo e me recolha na penumbra do meu quarto sem emitir qualquer palavra. Dizem por aí que é por conta do diagnóstico de autismo que possuo – e muitos usam desta alegação para se distanciarem sem preocupação. Mas o mutismo seletivo é um, dentre tantos, indicativo daquilo que não consigo dizer, pois alguma força estranha, entre-fronteiras, corta o som ou o conjunto de letras no momento em que tento manifestar: eu tenho, muito provavelmente como “todo mundo” que se cala diante do enunciado “mas todo mundo passa por isso, não só você” diante da exposição do seu sofrimento, ideações suicidas. Esta sociedade, com todo o seu higienismo moral, sua positividade tóxica, seu ódio, sempre me põe contra a parede e me diz “é agora!” deslizando sua faca sobre a minha carne esgotada.

“O que não queremos ver mais em nossa sociedade – o que equivale a dizer que não queremos mais esta sociedade – deve se tornar indesejável como uma imagem infernal, como distopia cuja realização significará a destruição do que haverá de mais familiar. Ou seja, viver outro mundo significa uma diferença no que aparecerá como real e como distópico. Sufocar possibilidades nos coloca tanto a demanda de uma imaginação violenta ou de uma violência imaginária, quanto o risco de um retorno do socialmente recalcado”, afirma Victor Galdino. Celebramos o fato de podermos fazer nosso tempo de trabalho, embora nunca tenhamos tempo por estarmos procrastinando. Procrastinamos até para dar atenção ao outro, se é que damos alguma. Mas isto não deve ser motivo para assumirmos uma postura pessimista. “É preciso sempre ter cuidado”, ressalta Victor, “quando nos engajamos com o empreendimento crítico, para não nos deixarmos enfeitiçar por enquadramentos negativos que nos tornem irremediavelmente pessimistas e impotentes – havendo vida, há disputa”.

Pois disputemos! Isto nos custará uma vida, não a de nossas singularidades somáticas, mas a que assumimos em sociedade. Não será com transformações modestas no sistema existente que resolveremos nossos problemas. Não queremos mais do mesmo, a mesmidade medíocre de afetos que nos deprimem. Queremos sentir de outra maneira, explorar nossas corpos, construir novos corpos, alegres e potentes, que amem, que fodam, que chorem, que exalem cheiro, que suem, que peidem, que arrotem, que bocejem, que sejam mundanos. Queremos um outro imaginário social que nos potencialize, não um que nos deprima. Com muito mais de 587  mil mortos, a arte não é suficiente!

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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